Por | Odaily Planeta Notícias & Poolin Bitmain Mining Pool | Autora | Huang Xuejiao | Editora | Mandy Wang Mengdie
Publicado por | Odaily Planeta Notícias (ID: o-daily)
Como jornalista que acompanha o setor de mineração há anos, percebo que, em momentos de alta volatilidade e instabilidade no mercado, muita gente se sente no direito de emitir opiniões e previsões sobre a mineração de Bitcoin, o que acaba gerando pânico desnecessário entre os investidores.
A verdade é que boa parte dessas afirmações parte de conceitos errados. Muitos que acham que entendem os princípios da mineração — ou que já tiveram algum contato com o setor — na realidade têm apenas uma noção superficial ou até equivocada sobre conceitos básicos.
Um exemplo: no dia 12 de março, durante uma queda brusca do BTC, a rede Bitcoin ficou uma hora inteira sem gerar nenhum bloco. Muita gente — inclusive eu e alguns amigos do meio — achou que o problema era o desligamento de equipamentos e uma queda drástica na hashrate, levantando o temor de que uma "crise na mineração" já estivesse batendo à porta.
Só que períodos longos sem blocos novos já aconteceram outras vezes — é simplesmente uma questão de sorte. Foi uma mera coincidência: nenhum minerador conseguiu, naquela janela de uma hora, encontrar um hash válido (que atendesse à dificuldade do momento).
Há vários outros casos parecidos. De mineradores a holders de BTC, muita gente acaba interpretando de forma exagerada — ou até distorcida — diversos dados, simplesmente por não entender direito o que eles significam. Se essas interpretações viram base para decisões de investimento, o risco é enorme. Na visão de quem é do ramo, esse tipo de erro é totalmente evitável.
Por isso, a Odaily Planeta Notícias, em parceria com a Poolin Bitmain Mining Pool, preparou uma lista de "curiosidades técnicas" sobre mineração — informações importantes, mas que costumam ser mal interpretadas. Veja quantas você já conhece!
O dado da "dificuldade da rede" é realmente confiável?
Na manhã do dia 18 de março — quatro dias após o tombo do Bitcoin — o medo de uma "crise na mineração" estava no ar.
Uma notícia dizendo que "a hashrate da rede Bitcoin caiu cerca de 40% neste mês, rompendo a barreira dos 100 E" assustou muita gente.
A análise era da renomada Skew Markets — uma influenciadora de peso no Twitter — que usou como fonte o site especializado BitinfoCharts. À primeira vista, parecia difícil errar. Só que especialistas identificaram na hora que esse dado não fazia o menor sentido.
Post oficial da Skew no Twitter
Voltando à fonte: no BitinfoCharts, se a gente subtrai o valor mínimo do mês (95,96) do máximo (133,29) e divide pelo máximo, a queda máxima mensal dá 28%. Ou seja, o número de 40% estava mesmo "bem longe da realidade".

Digamos que a Skew não tenha errado a conta e conclua corretamente que a hashrate caiu 28% no mês. Isso reflete a situação real? Em outras palavras: o dado da "hashrate global da rede em um determinado dia" é confiável?
A resposta é não — porque essa "hashrate global da rede" é calculada por uma fórmula, ou seja, é um valor teórico, e não um monitoramento em tempo real.
No setor, a gente costuma usar a seguinte "fórmula de cálculo da dificuldade":

Na prática, a rede não registra quantas máquinas estão minerando pelo mundo, e os próprios mineradores não têm um método oficial e confiável para fazer essa contagem.
Segundo a fórmula, o tempo entre blocos determina a hashrate teórica que os exploradores de blocos mostram. Só que é bom lembrar: achar um novo bloco no Bitcoin, por colisão de hashes, é uma questão de probabilidade. Com a mesma hashrate, pode-se encontrar um bloco em três minutos ou levar meia hora. Por isso, a hashrate teórica de curto prazo não reflete necessariamente mudanças reais no poder de mineração.
Por exemplo: normalmente são gerados 144 blocos por dia. Se num dia específico surgirem menos de 144, isso significa que a hashrate caiu rápido? Para responder, é preciso olhar os dados por um período maior. Só se a gente observar uma redução consistente no número diário de blocos ao longo de um tempo considerável é que dá para afirmar, com mais segurança, que a hashrate realmente diminuiu.
Mas decisões imediatas não podem depender de dados de um mês — ou até seis meses — atrás. Por isso, profissionais do setor costumam usar a média da hashrate dos últimos sete dias como referência para um determinado período, equilibrando precisão e agilidade.
Entendendo isso, quando você ler manchetes sensacionalistas como "hashrate do Bitcoin despencou em um dia" ou "hashrate do Bitcoin entrou em colapso", vai saber descartá-las com um sorriso no rosto.
A hashrate do Bitcoin já foi "dizimada" inúmeras vezes
O ajuste de dificuldade não é a cada 14 dias? Então por que pode atrasar?
Na noite de 12 de março, ao comentar o impacto da queda do Bitcoin na mineração, Pan Zhibiao, fundador da Poolin Bitmain Mining Pool, fez uma previsão ousada: faltavam 11 dias para o próximo ajuste de dificuldade, mas, se a hashrate caísse 30% nesse meio-tempo, o ciclo seria adiado em cinco dias, indo para 16 dias. Por isso, os mineradores precisariam ter caixa suficiente para pelo menos duas semanas — esperando a dificuldade global cair a um nível que tornasse a mineração viável de novo.
Muita gente deve ter ficado confusa ao ler isso: todo mundo sabe que a dificuldade do Bitcoin é ajustada a cada 14 dias — como esse ciclo pode ser adiado?
A explicação é bem simples. O objetivo do ajuste de dificuldade na rede Bitcoin é manter a velocidade média de geração de blocos em cerca de um bloco a cada 10 minutos, sendo que cada ciclo corresponde a 2016 blocos.
O reajuste a cada duas semanas, que já conhecemos bem, parte do princípio de que, no curto prazo, o poder de mineração global se mantém relativamente estável e o tempo médio para gerar um bloco oscila pouco em torno de 10 minutos.
Como mencionado, se o poder de mineração realmente cair de forma abrupta e os mineradores não tiverem capacidade computacional suficiente para encontrar o hash-alvo no tempo médio esperado, o tempo de geração dos blocos também vai aumentar, afetando o ciclo de ajuste de dificuldade.
Se o preço do BTC caiu abaixo do ponto de desligamento de alguns mineradores, por que o poder de mineração não diminuiu?
Para entender isso, precisamos saber como se calcula o preço de desligamento.
O preço de desligamento é o nível em que a receita gerada por um modelo específico de minerador se iguala ao seu custo (ou seja, o lucro líquido é zero).
Abaixo desse patamar, minerar com aquele equipamento deixa de ser viável economicamente. Do ponto de vista econômico, portanto, a maioria dos mineradores deveria desligar suas máquinas temporariamente nesse momento e aguardar os rumos do mercado.
A forte queda dos dias 12 e 13 de março levou rapidamente o preço do BTC abaixo do ponto de desligamento de vários modelos antigos, enquanto os equipamentos novos de alto desempenho (com consumo entre 45–65 W/T) seguem operando com margens mínimas — de alguns centavos a poucos dólares.
No entanto, observamos que, nos últimos dias, o poder de mineração da rede Bitcoin não apresentou uma redução significativa. Segundo estimativas de vários especialistas do setor, dos 100 EH/s de poder total registrados no final de 2019, cerca de 50 EH/s vinham de mineradores antigos com capacidade de 15 TH/s. Fica claro que esses equipamentos ainda não foram totalmente retirados de operação.
Os mineradores estão mesmo operando no prejuízo?
Pela fórmula do preço de desligamento, a mineração deve parar quando «receita do minerador – custo (principalmente energia) = 0». Com o mesmo preço do ativo e no mesmo momento, custos diferentes com eletricidade influenciam diretamente o valor do ponto de desligamento. Quanto menor o custo com energia, maior a capacidade do minerador de suportar quedas no preço do BTC — ou seja, seu preço de desligamento será mais baixo.
Portanto, ao dizer que o preço do BTC caiu abaixo do ponto de desligamento, nos referimos ao custo médio de energia adotado pelo setor como um todo. Isso não exclui a possibilidade de mineradores com acesso a tarifas de energia extremamente vantajosas continuarem operando seus equipamentos antigos.
Por exemplo, com uma tarifa de ¥0,24/kWh e o BTC a US$ 5.000, um Antminer S9 ainda gera um pequeno lucro de alguns centavos por dia.
Mesmo que os mineradores queiram desligar seus equipamentos, na prática isso nem sempre é simples. Muitos data centers de mineração, por exemplo, já declararam sua demanda de consumo às autoridades, tornando um desligamento repentino inviável. Para clientes cujas máquinas não cobrem mais os custos com energia, é comum que mineradores e operadores de data centers optem por alugá-las temporariamente para os próprios data centers, mantendo-as em operação. Para os donos dos data centers, o custo com energia costuma ser muito menor do que para clientes individuais, o que torna possível operar equipamentos antigos sem prejuízo.
Além disso, muita gente nas redes sociais gosta de afirmar que «quando o BTC chegar a XXXX, todos os S9 vão sair do mercado», uma declaração que não resiste a uma análise mais cuidadosa. Como explicado, mineradores do nível S9 ainda representam quase metade do poder total da rede. Se esses equipamentos fossem desligados em massa, o próprio preço de desligamento cairia drasticamente — criando um verdadeiro «dilema do prisioneiro»: ninguém teria incentivo para desligar primeiro. Na prática, portanto, não é tão fácil desligar todos os equipamentos antigos de uma vez.
Além do mais, muitos mineradores hoje usam instrumentos financeiros para atravessar fases de baixa do setor. Uma queda breve abaixo do «preço de desligamento» nem sempre impacta necessariamente o poder total de mineração.
A mineração também tem seus "truques", como em jogos online — e muitos mineradores já os usam
No final de 2018, a comunidade de mineração discutiu bastante um algoritmo de otimização chamado AsicBoost. Como o nome sugere, ele foi projetado para aumentar a eficiência da mineração.
De acordo com dados da pool de mineração Rawpool, mineradores que implementaram esse algoritmo em seus firmwares conseguiram reduzir o consumo de energia em mais de 12,5%. A lógica por trás dessa economia é explorar características específicas do formato dos dados dos blocos para reduzir inteligentemente o número de vezes que o minerador precisa receber dados, diminuindo assim o consumo.
Segundo informações públicas, o AsicBoost foi proposto originalmente em 2015 por dois pesquisadores — Timo Hanke e Sergio Lerner — e foi sendo patentado ao longo do tempo. Possivelmente por causa das restrições das patentes, a tecnologia não foi amplamente adotada no início.
Foi só em outubro de 2018, durante uma fase de queda contínua nos preços, quando vários modelos de mineradores estavam perto de atingir seus pontos de desligamento, que a Bitmain anunciou a integração do AsicBoost em modelos como o Antminer S9 e T9+.
Após o anúncio, as principais pools de mineração rapidamente seguiram o exemplo, declarando que eram «compatíveis com a mineração AsicBoost».
Dados de: Asicboost.dance
Segundo os dados mais recentes do site Asicboost.dance, a taxa de adoção do AsicBoost vem crescendo constantemente desde então, passando de menos de 5% para cerca de 70% atualmente — ou seja, quase três quartos de todos os mineradores da rede estão, de fato, usando esse recurso de otimização.
Em caso de congestionamento, as pools de mineração podem acelerar uma transação específica?
A forte queda dos dias 12 e 13 de março levou à liquidação forçada de muitos usuários de contratos futuros que não conseguiram reforçar suas posições a tempo. Ao mesmo tempo, o evento serviu como mais um teste rigoroso para a velocidade da rede Bitcoin. Dados indicam que, entre os dias 12 e 14, o número total de transações não confirmadas na rede disparou.
Imagem de: Johoe's Bitcoin Mempool Statistics
Basicamente, esse tipo de situação se repete sempre que há grandes movimentos de preço.
Nesses cenários, se o usuário quer evitar que sua transação fique presa por muito tempo na mempool, a única saída é aumentar a taxa, elevando assim a chance de ser priorizado pelos mineradores para inclusão no próximo bloco. Mesmo assim, porém, não há garantia de uma confirmação rápida.
Na verdade, dar uma "gorjeta" diretamente para um pool de mineração também pode acelerar esse processo.
Atualmente, vários pools, incluindo o Bixin, já oferecem um serviço de "aceleração de transações". Quem contrata esse serviço tem suas transações colocadas com prioridade na fila para serem incluídas no próximo bloco minerado pelo pool. Se o próximo bloco for minerado por esse pool, a transação é confirmada na hora. Se não for, o pool aumenta a taxa (fee) da transação para incentivar outros pools a priorizá-la, garantindo a aceleração.
De acordo com informações disponíveis, o tempo médio de confirmação para quem usa esse serviço é de 25 minutos — praticamente o mesmo de uma transação comum quando a rede não está congestionada. Durante picos de tráfego e alto congestionamento, esse serviço se torna uma alternativa interessante.
