No dia 24 de abril, a Ebang International entrou oficialmente com seu pedido de IPO junto à SEC, a comissão de valores dos EUA. A empresa planeja listar suas ações na NYSE ou na NASDAQ e pretende levantar US$ 100 milhões.
Esta é a terceira tentativa da Ebang de acessar o mercado de capitais. As duas tentativas anteriores na bolsa de Hong Kong (HKEX) fracassaram, por não atenderem ao "Princípio de Adequação para Listagem" e devido a uma série de processos judiciais pendentes.
Desta vez, a Ebang avança com sua oferta pública nos EUA em um momento delicado: sua concorrente Canaan Creative está sob ataque de uma empresa de short-selling, que a acusa de fraude, e as ações chinesas listadas na América enfrentam uma crise de confiança. O desfecho dessa decisão também é incerto.
Mas por que a Ebang está com tanta pressa para fazer o IPO?
O cenário atual é, sem dúvida, um dos piores possíveis para uma empresa chinesa tentar ingressar no mercado norte-americano.
No entanto, a Ebang tem um motivo inevitável para insistir: a necessidade urgente de capital.
Seu prospecto revela que, em 2018 e 2019, a empresa registrou receitas de US$ 319 milhões e US$ 109 milhões, respectivamente, com prejuízos líquidos de US$ 11,81 milhões e US$ 41,07 milhões. Em comparação com a concorrente Canaan Creative, a receita operacional da Ebang em 2019 foi apenas metade.
Além disso, o fluxo de caixa da empresa não é robusto. O documento indica que, em 2018, o fluxo de caixa líquido das atividades operacionais foi negativo em 108 milhões de yuans, e em 2019, negativo em 13 milhões de yuans.
Até 31 de dezembro de 2019, a Ebang também tinha 13,74 milhões de yuans em outras contas a pagar e 11,83 milhões de yuans em contas a pagar regulares.
Historicamente, a empresa cobriu suas necessidades de capital de giro com o fluxo de caixa operacional, aportes de acionistas e empréstimos bancários, conforme descrito no prospecto.
A queda na lucratividade e a pressão no caixa tornam os recursos financeiros atuais insuficientes para sustentar o crescimento da Ebang.
Observa-se que a Canaan Creative não lança um novo modelo de minerador há quase um ano; seu lançamento mais recente, a série Avalon E12, foi em maio do ano passado.
Por outro lado, nos últimos seis meses, Bitmain, MicroBT (fabricante das Whatsminer) e a própria Canaan lançaram equipamentos mais avançados: a série S19 (7 nm) da Bitmain, a série M30S (8 nm) da MicroBT e a série A11 (alta potência) da Canaan, todos com melhor eficiência energética.
Já a série E12 da Ebang ainda é baseada em tecnologia de 10 nm, com poder de 55 T/s e eficiência de 57 W/T — um desempenho que só é comparável à geração anterior da Canaan, a mineradora A1066 Pro.
Embora o prospecto afirme que seus chips de 8 nm e 7 nm foram projetados em 2019, eles ainda não foram lançados no mercado.
Os gastos com pesquisa e desenvolvimento da Ebang foram de US$ 43,5 milhões em 2018 e caíram para US$ 13,4 milhões em 2019 — uma redução de 69,2% no período.
O corte drástico no investimento em P&D deixou seus produtos defasados em relação à concorrência, fazendo com que os equipamentos da Ebang perdessem competitividade em termos de preço.
De acordo com os dados financeiros do prospecto, o preço médio de venda por terahash (T) das mineradoras da Ebang foi de US$ 15 em 2019, enquanto o da Canaan foi de US$ 19.


As vendas de mineradoras da Ebang também despencaram. Em 2018, a empresa vendeu cerca de 416 mil unidades, número que caiu para 290 mil em 2019. Paralelamente, o preço médio por unidade recuou de US$ 737 para US$ 304.
A forte queda na receita do negócio principal levou a Ebang a buscar novos vetores de crescimento. Diferente da Bitmain e da Canaan, que investem em IA, a Ebang voltou-se para o setor de exchanges de criptomoedas — conhecido por gerar receita rapidamente.
No prospecto, a empresa declara sua intenção de estabelecer uma exchange de criptomoedas fora da China, oferecendo serviços de trading à comunidade.
Considerando que as políticas regulatórias para exchanges ainda são incertas tanto nos EUA quanto na China, a entrada da Ebang nesse segmento envolve risco considerável — o que aumenta a incerteza sobre o sucesso de seu IPO.
A migração para o mercado norte-americano pode ser uma jogada de alto risco.
Além do negócio de exchanges, o maior fator de incerteza para o IPO da Ebang são os vários processos judiciais pendentes.
Por exemplo, em setembro de 2018, a empresa se envolveu no colapso da plataforma P2P Yindouwang. Houve uma movimentação financeira obscura de 520 milhões de yuans entre a Ebang e o controlador da Yindouwang, levando investidores a suspeitarem de ocultação de ativos.
No mesmo ano, a Ebang foi processada por um cliente, Ma Xiaoyun, que comprou 500 mineradoras Avalon E10 por 13 milhões de yuans. Os equipamentos apresentaram falhas frequentes, necessitando de 873 reparos em apenas três meses. O litígio ainda não foi resolvido.
Em dezembro do ano passado, a Zhongying Interconnection, empresa listada na Bolsa de Xangai (A-shares), anunciou que sua subsidiária havia pago à Ebang International pela compra de máquinas de mineração, mas não recebeu os equipamentos. A Ebang International foi acusada de fraude contratual, mas rebateu alegando que se tratava de uma denúncia maliciosa, apresentando uma contrapetição. Até o momento, o processo judicial entre as partes ainda não foi resolvido.
Além desse litígio, outro obstáculo para a Ebang International em sua tentativa de listagem nos EUA é a crise de confiança gerada pelo caso da Luckin Coffee.
Desde 2 de abril, quando a Luckin Coffee admitiu publicamente fraudes contábeis, outras empresas chinesas listadas nos EUA — como a GSX Techedu (conhecida como “Genshuixue”) e a iQIYI — também foram alvo de acusações de irregularidades por parte de firmas de short-selling. A concorrente da Ebang, a Canaan Creative, que abriu capital em novembro do ano passado, viu seu desempenho financeiro se deteriorar rapidamente: registrou prejuízo operacional de 1 bilhão de yuans e perdeu 70% do valor de mercado, além de ter sido igualmente acusada de fraude por essas mesmas firmas.
Essa sequência de crises de confiança envolvendo empresas chinesas no exterior torna o caminho da Ebang International para a listagem nos EUA ainda mais difícil. No entanto, se não conseguir acessar o mercado de capitais, a empresa também enfrentará riscos extremos diante da crescente pressão competitiva de outros fabricantes de máquinas de mineração.
