Contexto
O Blockchain Research Institute promove quinzenalmente o programa “Perguntas aos Grandes Especialistas”, trazendo profissionais renomados, perspicazes e reflexivos do setor para compartilhar conhecimento e debater ideias com estudantes de blockchain. Os convidados costumam oferecer análises profundas e insights valiosos, fazendo do programa um verdadeiro “Diálogo Quinzenal sobre Blockchain”. Nesta edição, temos a honra de receber o renomado Professor Changyong Liu, especialista em economia e um dos principais evangelizadores da tecnologia blockchain. Em meio às profundas transformações econômicas globais desencadeadas pela pandemia de COVID-19 — cujo impacto na política e na economia mundial é inegável —, o Professor Liu compartilha conosco sua palestra intitulada “Riscos e Oportunidades dos Ativos Criptográficos na Crise Econômica Global”.
O Professor Changyong Liu é fundador da Universidade ZhiMi, doutor em Economia pela Universidade de Pequim, criador da moeda digital livre (Free Cash), diretor do Centro de Pesquisa em Economia Blockchain da Universidade de Comércio e Indústria de Chongqing, professor convidado da Huobi University, vice-diretor do Instituto de Ativos Digitais (Chongqing), membro do Comitê de Cooperação Acadêmica da Academia Asiática de Indústria Blockchain e colunista de plataformas como Mars Finance, ChainNews, Bitmain, Golden Finance e CoinK.
Pergunta do Instituto de Pesquisa: Sabemos que o BTC surgiu durante a crise financeira global de 2008, e seu whitepaper descreve explicitamente como ele evita as falhas das moedas fiduciárias tradicionais. Este ano, com o impacto da pandemia, os mercados financeiros globais sofreram uma forte queda, e o BTC também apresentou extrema volatilidade. Isso significa que sua característica de “ouro digital” como ativo de proteção está se desgastando, ou será que nossa compreensão anterior estava equivocada?
Professor Changyong Liu: Após a pandemia — especialmente nos últimos dias, com os problemas econômicos nos Estados Unidos —, o Bitcoin acompanhou a forte queda dos mercados tradicionais. Isso, de fato, surpreendeu muita gente.
Todos sabemos que, antes de 2017, a relação entre o Bitcoin e a economia tradicional era bastante clara: sempre que a economia convencional enfrentava dificuldades — especialmente crises financeiras, como grandes flutuações cambiais, quedas acentuadas nas bolsas ou problemas bancários —, o preço do Bitcoin disparava.
Vejamos alguns exemplos: em 2012 ou 2013, o colapso do sistema financeiro de Chipre desencadeou a primeira grande alta do Bitcoin. Outro caso foi a saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit): na época, o Brexit representou um golpe significativo para a economia europeia e até para a mundial. Durante a votação, à medida que os votos favoráveis ao Brexit aumentavam, a libra esterlina começou a cair continuamente; cerca de dois minutos depois, o Bitcoin iniciou uma alta sustentada.
Outro exemplo foi a eleição de Donald Trump: conforme sua taxa de votos crescia, os mercados acionários norte-americanos e outros ativos financeiros caíam, enquanto o Bitcoin subia.
Ou seja, o Bitcoin se movia na direção oposta à economia e aos mercados financeiros tradicionais: quando estes iam mal, o Bitcoin tendia a se valorizar; e quando o Bitcoin subia, geralmente indicava que havia sérios problemas na economia tradicional.
Por que isso acontecia? Em primeiro lugar, conceitualmente, Satoshi Nakamoto criou o Bitcoin com o objetivo explícito de substituir todo o sistema monetário fiduciário tradicional — e, consequentemente, todo o sistema financeiro construído sobre ele.
Além disso, sua arquitetura foi projetada exatamente para esse fim: é descentralizada e sem fronteiras. Isso contrasta radicalmente com os sistemas monetários fiduciários tradicionais — que constantemente emitem novas moedas e sofrem com conflitos e barreiras entre as moedas de diferentes países. Por isso, Satoshi Nakamoto propôs o Bitcoin como uma ferramenta revolucionária para transformar os sistemas financeiro e monetário tradicionais. Assim, seus movimentos eram naturalmente inversos.
Essa dinâmica fez com que, na época, investidores, detentores e até especuladores do Bitcoin adotassem, em sua maioria, posturas anarquistas ou, no mínimo, libertárias. Eles tinham uma visão negativa da economia tradicional e uma visão positiva do Bitcoin. Portanto, quando a economia tradicional enfrentava problemas, eles compravam Bitcoin, elevando seu preço — tornando assim extremamente evidente essa correlação inversa.
Nesse sentido, dizer que o Bitcoin é um “ativo de proteção contra riscos” é, na verdade, incorreto. Ele não serve como proteção. Trata-se de um ativo de hedge contra os riscos da economia tradicional: quando esta está bem, o Bitcoin tende a enfraquecer; quando ela está mal, o Bitcoin tende a se fortalecer.
Normalmente, um “ativo de proteção contra riscos” é aquele cuja volatilidade é muito baixa; quando temos medo da volatilidade financeira, buscamos um refúgio seguro — como um porto seguro em meio a uma tempestade no mar. Sob essa perspectiva, o Bitcoin não possui absolutamente nenhuma característica de ativo de proteção: sua volatilidade é muito maior do que a de qualquer ativo tradicional. Logo, ele é, sim, um ativo de hedge.
Enfatizar a função de proteção do Bitcoin — ou mesmo chamá-lo de “ouro digital” —, além de afirmar que sua capacidade de hedge diminuiu drasticamente desde 2017 — especialmente recentemente, quando passou a cair em sincronia com os ativos tradicionais, ou até mais intensamente (como em 12 de março) — revela uma mudança importante: desde 2017, o Bitcoin passou por várias transformações fundamentais.
A primeira mudança foi que, após 2017, instituições financeiras tradicionais e investidores institucionais começaram a alocar capital no Bitcoin. Essa entrada de capital impulsionou fortemente o preço do Bitcoin e também gerou uma onda de alta em outras criptomoedas, fazendo com que seus valores de mercado multiplicassem várias vezes.
Com a chegada desses investidores tradicionais, quando os mercados financeiros globais enfrentaram problemas, esses grandes players — muitos deles verdadeiros “tubarões” — reduziram seus portfólios e venderam, em primeiro lugar, ativos considerados periféricos, não principais ou fora de seu foco estratégico. Assim, ativos como o Bitcoin foram amplamente descartados. E, como esses grandes players têm enorme poder de influência no mercado — muito maior do que o de pequenos investidores ou mesmo dos primeiros defensores anarquistas —, mesmo pequenas vendas tiveram impacto massivo. Em resumo, o primeiro fator é que, nos últimos anos, o Bitcoin foi incorporado à carteira de ativos tradicionais, permitindo que esses investidores institucionais passassem a exercer influência direta sobre o mercado do Bitcoin.
O segundo fator é que o próprio Bitcoin enfrentou problemas: em 2016, fracassou a tentativa de aumento de escala (scaling), seguida por graves congestionamentos na rede. Esses congestionamentos comprometeram a visão original de Satoshi Nakamoto — de que o Bitcoin deveria funcionar como dinheiro eletrônico ponto a ponto, oferecendo vantagens substanciais frente às moedas tradicionais: descentralização (sem emissão excessiva ou manipulação), ausência de fronteiras (livre de custos cambiais) e facilidade de uso. Na prática, após o congestionamento de 2016, a descentralização também ficou comprometida: 70%–80% da comunidade apoiava o aumento de escala, mas os desenvolvedores centrais bloquearam a iniciativa, culminando no fracasso definitivo.
Uma vez congestionada, a rede Bitcoin passou a cobrar taxas de transação muito altas: enviar uma transação podia levar mais de meia hora, e as taxas subiram de poucos centavos para vários dólares — chegando a dezenas ou mesmo centenas de dólares. No final de 2017, algumas transações chegaram a custar milhares de dólares. Como resultado, importantes empresas que haviam adotado o Bitcoin como meio de pagamento — como Microsoft, Dell e a plataforma de jogos Steam — anunciaram oficialmente que deixariam de aceitá-lo. Ou seja, sua funcionalidade original como moeda descentralizada e criptográfica regrediu significativamente após 2017.
O terceiro fator foi que a grande alta de 2017 atraiu uma enxurrada de especuladores e pessoas esperando enriquecer rapidamente — que, até hoje, constituem a maioria numérica da comunidade de criptomoedas. Esses novos participantes não possuem uma compreensão clara nem um compromisso firme com os princípios originais de descentralização e com o propósito fundamental das moedas criptográficas.
Assim, a maioria desses novos investidores está habituada — ou simplesmente adora — modelos especulativos P2P ou bolhas puramente financeiras. Hoje já podemos observar que a maior parte dos projetos de blockchain segue a estratégia de “bloqueio de tokens + manipulação de preços”.
Ou seja, o Bitcoin tornou-se apenas mais um ativo dentro da carteira de investimentos tradicionais, perdendo os avanços conquistados inicialmente como moeda descentralizada e criptográfica. Sua função monetária foi praticamente anulada, e hoje é amplamente aceito como “ouro digital”: um ativo de reserva de valor, guardado e não utilizado. Assim, o terceiro fator é que ele se tornou um alvo privilegiado para especuladores.
Esses três fatores provocaram uma mudança drástica na composição do núcleo da comunidade Bitcoin — anteriormente idealista, anarquista e libertária, motivada por um desejo genuíno de substituir os sistemas financeiro e monetário fiduciários tradicionais.
Portanto, não é que nossa compreensão anterior estivesse equivocada. O fato é que, após 2017, as criptomoedas se tornaram ativos de investimento para o capital tradicional e um paraíso para especuladores. Trata-se de um fato profundamente lamentável.

Pergunta do Instituto de Pesquisa: Sobre as criptomoedas, o tema mais comentado ultimamente foi a forte queda de preço do Bitcoin (BTC) em 12 de março. Professor, poderia nos explicar essas duas quedas e quais ângulos devemos considerar para analisá-las?
Professor Changyong Liu: Como mencionei anteriormente, a forte queda do Bitcoin em 12 de março está diretamente ligada ao fato de ele ter se tornado um ativo de investimento tradicional. Naquele dia, todos os ativos globais despencaram simultaneamente. Houve, pelo menos, duas razões principais: primeiro, os principais atores econômicos — grandes investidores e instituições — perceberam subitamente, sob o impacto da pandemia de COVID-19, que a crise econômica de curto prazo provocada pela pandemia poderia expor contradições acumuladas ao longo de décadas, potencialmente desencadeando uma grande crise.
Isso causou, de forma imediata, uma severa contração da liquidez global: ninguém mais queria investir, e todos correram para recuperar ativos digitais e manter o máximo possível de dinheiro vivo (“cash is king”). Nesse cenário, os ativos tradicionais caíram rapidamente. Mas, como já expliquei, o Bitcoin já não funciona mais como ativo de proteção contra riscos — ele agora faz parte da carteira de ativos tradicionais. Assim, ao liquidar ativos para recuperar liquidez, esses grandes investidores priorizam justamente o Bitcoin, pois, para eles, trata-se de um investimento periférico.
Mas e o Bitcoin em si? Seu mercado é pequeno e tem pouca profundidade se comparado a qualquer plataforma de investimento tradicional global, como o de commodities. Por isso, mesmo que o volume de vendas de Bitcoin seja muito menor, seu impacto no mercado global é amplificado justamente pelo tamanho reduzido.
Outro fator foi a alta excessivamente otimista impulsionada pela expectativa do "halving". Muitos acreditavam que um novo bull market tinha começado — uma euforia generalizada que, por si só, criou uma pequena bolha. Minha percepção na época foi clara: nas duas semanas anteriores ao halving, por volta de março, participei de sete ou oito entrevistas ao vivo, todas discutindo o "efeito halving", com uma aposta unânime de que ele traria um grande bull market. Nesse período, o preço do Bitcoin subiu consideravelmente — algo entre 40% e 50%.
No entanto, durante essas transmissões, deixei claro que, na minha visão, o verdadeiro efeito positivo do halving ainda estava distante — provavelmente só se manifestaria no segundo semestre. O que víamos era apenas uma antecipação exagerada, alimentada pela pura esperança de alta. Esse cenário já era arriscado por si só e coincidiu com o estouro da bolha de expectativas do setor, resultando numa queda muito mais severa do que eu mesmo havia previsto.
Quais são os pontos positivos dessa correção forte? Dois se destacam. Primeiro: normalmente, antes do halving há uma expectativa positiva que empurra o preço para cima; depois do evento, ocorre a chamada "crise dos mineradores", com contração de liquidez — menos dinheiro em circulação e menor produção de novos BTC. Os equipamentos param de dar lucro, forçando os mineradores a desligá-los e vender seus BTC para pagar a conta de luz. Além disso, boa parte da indústria de mineração entra em colapso. Historicamente, esse fenômeno é visto como uma espécie de "desastre" e costuma provocar uma queda logo após o halving. Dessa forma, como já houve uma queda significativa agora, parte desse ajuste pode ter sido antecipado — o que reduziria o impacto negativo do halving de fato.
Antes, o mercado antecipava o halving com a expectativa de que a oferta diminuiria e o valor do Bitcoin aumentaria — gerando otimismo. Esse otimismo, porém, tende a se desfazer no momento do halving, levando a uma reação contrária: os investidores percebem que erraram a mão e ficam pessimistas, causando uma queda forte. Como essa queda já aconteceu antes, é possível que o impacto pós-halving seja menos severo. Esse é um efeito possível. O segundo efeito é que essa queda eliminou, em grande parte, o suporte de preço baseado na ideia do Bitcoin e outras criptomoedas como ativos de investimento institucional. Antes de 2017, o Bitcoin funcionava principalmente como um hedge contra o sistema financeiro tradicional — inclusive como uma forma de apostar contra ele. Depois, passou a cumprir duas funções: alguns o adotaram justamente para apostar contra o sistema tradicional, convencidos de sua falência.
Muitos outros, porém, passaram a tratá-lo como uma plataforma de investimento institucional legítima — o que ajudou a impulsionar o grande bull market de 2017. Em 2018 e 2019, boa parte dessa bolha já havia se dissipado, mas ainda restava algum resquício. Essa queda recente eliminou quase por completo essa característica de "ativo institucional" e seu respectivo suporte de valor. Sobraram, principalmente, aqueles que confiam na descentralização do Bitcoin ou na sua capacidade de servir como hedge contra o sistema financeiro tradicional.
Assim, à medida que a economia tradicional continuar a se deteriorar, essa segunda função do Bitcoin começará a se manifestar progressivamente. Ou seja, mantenho meu otimismo para o segundo semestre: caso a economia global entre, conforme o previsto, numa crise sem precedentes em cem anos, ela provavelmente enfrentará um processo prolongado de recessão — com duração mínima de um ou dois anos. Nesse período, as criptomoedas — especialmente as descentralizadas (atenção: *apenas* as descentralizadas) — revelarão cada vez mais seu valor como hedge e como instrumento de aposta contra a economia tradicional.
Resumindo: sou otimista quanto ao segundo semestre por dois motivos principais. Primeiro, após o halving, a oferta diária de Bitcoin e das principais moedas Proof-of-Work (POW) será reduzida pela metade — o que significa que a quantidade de BTCs colocados à venda diariamente também cairá pela metade, gerando um impulso sustentado de alta. Segundo, uma crise prolongada (de um ou dois anos ou mais) no sistema financeiro tradicional beneficiará diretamente as criptomoedas descentralizadas que estamos desenvolvendo hoje.

Pergunta da equipe de pesquisa: O setor de criptoativos tem uma correlação intrínseca com o sistema financeiro. Recentemente, a pandemia de COVID-19, o ciclo da economia da internet e a crise econômica têm gerado uma avalanche de eventos complexos. Poderia nos explicar, de forma geral, qual é o cenário macroeconômico atual?
Professor Liu Changyong: Ótimo. Continuando de onde paramos, o cenário macroeconômico atual é, de fato, extremamente sombrio. Na minha avaliação, já entramos numa crise sem precedentes em cem anos — cuja gravidade pode ser comparada à Grande Depressão de 1929. Contudo, não é preciso entrar em pânico: em 1929, a sociedade era predominantemente material, e os principais setores produtivos eram físicos. Isso fez com que a crise e a subsequente contração da produção gerassem desemprego em massa e sofrimento social extremo. Hoje, embora a escala desta crise possa ser equivalente, seu impacto potencial é menor.
Naquela época, como vivíamos numa sociedade material, muitas pessoas passavam fome — algumas até morriam de inanição. Hoje, já vivemos numa sociedade da informação e financeira: o principal impacto será, provavelmente, a perda de riqueza financeira.
Por que essa crise surgiu agora? Existem vários fatores-chave. A pandemia de COVID-19 foi apenas o estopim — o gatilho que estourou a bolha. Na verdade, há três causas estruturais principais. A primeira é o ciclo econômico da internet: após 20 anos de ascensão, a economia da internet transformou profundamente a operação da economia global. No entanto, nos últimos anos, ela atingiu seu limite — enfrentando problemas insolúveis que enfraqueceram seu crescimento, sua inovação e seu poder de impulsionar a economia global. Numa perspectiva de uma ou duas décadas, esse esgotamento do ciclo da internet é uma causa fundamental.
O segundo fator, analisado numa perspectiva de quarenta ou cinquenta anos, envolve os países emergentes — aqueles que obtiveram rápido crescimento econômico e acumulação de riqueza graças à transição para economias de mercado. A China é o exemplo mais emblemático. Atualmente, países como China e Rússia já realizaram praticamente todas as reformas de mercado viáveis. As reformas restantes são extremamente difíceis — e, em alguns casos, há até retrocessos, com o retorno de políticas de maior controle estatal e planejamento centralizado. Esse é outro fator crucial.
Além disso, nos anos anteriores, esses países emergentes se beneficiaram amplamente da abertura e da aprendizagem com os países desenvolvidos — adquirindo, a baixo custo, tecnologia, informações e patentes. Hoje, isso já não é tão fácil: a China, por exemplo, já chegou à fronteira do conhecimento global e precisa agora inovar por conta própria — um desafio muito maior.
Claro, há também outros fatores: o fim do bônus demográfico, o esgotamento gradual do bônus da urbanização, entre outros. Em resumo, nos últimos anos, a China ainda contava com alguma inércia de crescimento econômico — mas essa inércia está desaparecendo rapidamente. Para os especialistas em economia, já é evidente: o crescimento chinês entrará num longo período de ajuste. Globalmente falando, o impulso de crescimento dos países emergentes está chegando ao fim.
O terceiro fator, numa perspectiva histórica ainda mais longa, é o problema do sistema de moeda fiduciária. O sistema fiduciário surgiu após o fracasso do padrão-ouro na Grande Depressão de 1929. Depois disso, os governos abandonaram o padrão-ouro e passaram a emitir moedas não conversíveis — o sistema que usamos hoje. Essa mudança foi extremamente importante: muitos liberais e economistas da escola austríaca a consideram um erro catastrófico. Eu, no entanto, discordo. Acredito que essa mudança foi fundamental para o crescimento econômico subsequente — e que boa parte do crescimento dos últimos cem anos está diretamente ligada às características do sistema fiduciário, especialmente ao poder ilimitado dos governos de imprimir moeda. O primeiro efeito direto foi a suavização dos ciclos econômicos anteriores, que eram muito mais intensos.
Sempre que surgia uma crise grave, os bancos centrais injetavam liquidez e reduziam os juros — aliviando assim a pressão. Ao observar a história, percebemos que as crises anteriores a 1929 tornavam-se cada vez mais graves — tanto que Karl Marx escreveu "O Capital", argumentando que as crises capitalistas inevitavelmente se agravariam até o colapso final.
Na prática, porém, as crises posteriores a 1929 foram menos severas — graças, em grande parte, ao sistema fiduciário. Esse sistema permite antecipar o futuro: ele mobiliza recursos imediatamente — mesmo antes de o capital necessário ter sido acumulado naturalmente — para financiar projetos inovadores e de ponta. Isso é particularmente visível na economia da internet: muitas empresas operam no vermelho por anos, mas conseguem recuperar todos os prejuízos num único ano. Esse modelo está diretamente ligado à expansão financeira possibilitada pelo sistema fiduciário.
O problema é que essa expansão contínua é semelhante ao uso de ópio: quanto mais se usa, mais se precisa. Com o tempo, todos percebem que a moeda será superemitida — e, portanto, é vantajoso tomar empréstimos para investir em ativos, pois seus preços inevitavelmente subirão. No final, até leigos e iniciantes sabem que devem comprar imóveis — um sinal perigoso de que todos estão explorando as falhas do sistema fiduciário. É como jogar um videogame: no início, só você descobre uma brecha e obtém vantagem. Mas, quando todos descobrem e passam a explorar a mesma falha, o jogo perde a graça — e seu modelo inteiro pode entrar em colapso. O sistema fiduciário enfrenta exatamente esse problema. Felizmente, as autoridades monetárias estão cientes e tentam constantemente regulá-lo e controlá-lo.
Assim, o sistema consegue se manter — ainda que precariamente — graças à inércia de décadas de operação. No entanto, a pandemia de COVID-19 atuou como uma agulha que estourou, de uma só vez, uma gigantesca bolha. Talvez essa bolha tivesse uma "casca" espessa — resistente aos ventos dos últimos anos — mas a chegada repentina dessa "agulha" desencadeou a crise. Não interpretem isso como alarmismo: o Federal Reserve (Fed) está plenamente ciente do risco. Ele emprega centenas de economistas — e, diferentemente de muitos economistas em outros países, que apenas explicam políticas, os do Fed são responsáveis por formulá-las e conduzir pesquisas prospectivas. E não pensem que o presidente Trump é irresponsável: o Fed é uma instituição independente — e, de fato, muitas vezes prefere agir em oposição ao governo.
Após o início da pandemia, o Fed reduziu imediatamente os juros para zero e lançou uma política de "injeção infinita de liquidez", usando praticamente todos os seus instrumentos. O que isso significa? Que eles identificaram uma crise sem precedentes — algo nunca visto antes.
Hoje li uma análise do economista-chefe Liang Hong, que, há quinze dias, afirmava que o impacto da pandemia na China seria breve — afetando apenas o crescimento do primeiro trimestre — e que o crescimento anual ainda poderia ficar em 6%. Porém, ontem ou hoje, ele revisou sua projeção: reduziu a previsão de crescimento da China em 2020 de 6% para… 2,6%. Que número assustador!
Contudo, acredito que essa nova projeção é razoável — e talvez ainda seja otimista. Portanto, a ameaça de uma crise econômica global é extremamente séria.
Ao somar os conflitos desencadeados pela pandemia, o declínio da economia da internet, os desafios dos países emergentes e as contradições inerentes ao sistema fiduciário global, concluímos que o cenário macroeconômico atual é francamente desfavorável. É possível que estejamos vivendo, de fato, uma crise de uma em cem anos — embora dizer que isso é uma "sorte" seja, obviamente, uma ironia. No entanto, há um aspecto positivo: nesse processo, podemos aprender muito. Em resumo, nem tudo está perdido — sei onde reside a esperança. Voltaremos a esse tema mais tarde.
Pergunta da Qianyan Research: Em termos simples, como você descreveria a estrutura geral do mercado de criptomoedas? E, nesse contexto, que tipo de impacto essa estrutura tem sobre outros investimentos em criptoativos?
Professor Liu Changyong: A estrutura atual do mercado de criptomoedas pode ser vista em camadas. A primeira e principal é o Bitcoin, que concentra o maior volume de mercado e atrai a maior parte do capital. O Bitcoin atende a várias demandas essenciais. A mais importante é como ativo de investimento — antes considerado periférico, hoje já é adotado até por instituições tradicionais, tornando-se o ativo de maior porte. Outra demanda está nas transações na zona cinzenta: embora sua função como moeda tenha diminuído muito, ainda é usado em transações ilícitas de alto valor, como ransomware e tráfico de armas e drogas, onde os usuários não se importam com taxas ou congestionamento da rede. Além disso, o Bitcoin também é usado para transferências internacionais de grandes volumes, especialmente no comércio exterior, consolidando sua posição como o maior ativo do setor.
Outras moedas principais, como Ethereum, Bitcoin Cash (BCH) e BSV, têm comunidades sólidas e bem definidas, sustentadas por ideologias claras. Já o Ripple (XRP) sempre me pareceu mais difícil de entender em termos de base de usuários: é uma moeda centralizada, com emissão controlada, mas ainda não consigo identificar claramente quem são seus usuários reais. No entanto, conheço bem as outras. O Ethereum foi concebido como uma plataforma global descentralizada de computação, e até hoje há desenvolvedores e usuários que seguem firme nessa direção — com aplicações práticas, como o CryptoKitties. Atualmente, o DeFi (Finanças Descentralizadas) é uma aplicação especialmente relevante.
O Bitcoin Cash segue mais fielmente a trajetória original do Bitcoin, focando na função de moeda e meio de pagamento, com melhorias implementadas desde a base. Por exemplo, Roger Ver tem promovido ativamente o uso do BCH para pagamentos no mundo todo — inclusive na Austrália, onde um grupo local incentiva sua adoção. Eu mesmo já usei esses serviços e posso dizer que funcionam bem: para estrangeiros como eu, usar o BCH permite economizar entre 10% e 20% em comparação com moedas tradicionais. Já o BSV se apresenta como uma criptomoeda, mas com uma visão ainda mais ambiciosa. Ele se baseia em dois pilares: primeiro, defende que tanto o Bitcoin quanto o Bitcoin Cash seguiram rumos errados — piorando com o tempo — e que é preciso voltar às ideias originais de Satoshi Nakamoto, ou seja, “retornar ao clássico”.
Essa “volta ao clássico” é levada ao extremo: muitas das melhorias introduzidas posteriormente — incluindo atualizações feitas por diversos desenvolvedores — são simplesmente descartadas. O segundo diferencial do BSV é a proposta de migrar toda a infraestrutura da internet para sua própria blockchain: nele, são registrados dados variados, como previsões do tempo, notícias e outras informações. Resumindo, o objetivo é manter fielmente o protocolo original de Satoshi, sem alterações — exceto pelo aumento contínuo da capacidade dos blocos (scaling), com a ambição de transformar toda a internet em uma camada construída sobre o BSV. Embora eu considere essa abordagem pouco viável, ela atraiu uma base de usuários leais e comprometidos, formando uma comunidade sólida. Há também outras moedas emergentes com comunidades igualmente dedicadas.
Essas moedas têm direções claras e comunidades ativas, muitas vezes formadas por membros racionais e profundamente envolvidos na construção coletiva. No entanto, a grande maioria das moedas existentes não tem essas características. Há, por exemplo, as moedas de economia de tokens: geralmente associadas a ideias e objetivos específicos — e, em alguns casos, até a negócios reais — desempenhando funções dentro de seus respectivos ecossistemas. O problema é que esses ecossistemas são fechados, o que dificulta sua expansão para o nível de uma moeda global. Exemplos típicos são as moedas de plataformas — como BNB (da Binance), HT (da Huobi) e OKB (da OKX) — emitidas e usadas apenas em seus próprios ambientes.
Além disso, essas moedas operam de forma centralizada, sob gestão direta das equipes dos projetos. Sua valorização depende diretamente do desempenho comercial dessas plataformas, exchanges ou empresas — ou seja, têm suporte enquanto o negócio vai bem, e perdem se houver problemas. Isso as diferencia fundamentalmente das criptomoedas descentralizadas. Embora muitos desses projetos queiram se descentralizar, na prática é muito difícil: uma vez descentralizados, perdem o suporte estrutural e tendem a se desvalorizar; ao mesmo tempo, abandonar a descentralização só reproduz os problemas iniciais, impedindo o crescimento sustentável do ecossistema.
Assim, o sucesso dessas moedas depende diretamente da saúde do ecossistema em que estão inseridas. No entanto, elas enfrentam um risco estrutural de longo prazo: por serem tokens centralizados, sua classificação jurídica é incerta e seu respaldo legal, frágil. Portanto, sua sustentabilidade depende basicamente de dois fatores: primeiro, que a plataforma continue lucrativa e não desapareça — garantindo sua continuidade; segundo, a integridade ética dos responsáveis — pois algumas plataformas, mesmo com desempenho ruim, oferecem mecanismos de saída ordenada para preservar a reputação. Outras, porém, não dão essa garantia. Ao avaliar essas moedas, se a plataforma por trás não é lucrativa nem tem boa reputação, o risco é alto — mesmo que, no início, apresente ideais inspiradores ou propostas atraentes.
Por fim, há um grupo de moedas que surgiram de esquemas de pirâmide antigos ou “fundos de investimento” fraudulentos, além de projetos criados deliberadamente para explorar novos participantes (“colher alfaces”). Esses projetos costumam exigir grandes investimentos iniciais e usar mecanismos sofisticados — cujo cerne é, primeiro, “vender sonhos”: mostrando tecnologias avançadas ou trazendo figuras influentes para endossá-los. Em segundo lugar, estabelecem modelos de retorno atrativos desde o início — tanto estáticos quanto dinâmicos — facilitando a entrada de quem busca ganhos rápidos. Depois de atrair um número significativo de participantes, esses projetos promovem altas artificiais sucessivas (“pump”) até atingir um certo patamar, quando os criadores fogem com o dinheiro ou passam a responsabilidade para a comunidade.
No cenário atual, apenas as criptomoedas descentralizadas conseguem, de fato, funcionar como proteção (hedge) contra a economia tradicional e permitir apostas de queda (short). É justamente sua natureza descentralizada que as distingue radicalmente dos sistemas financeiros convencionais — dando a elas lógicas diferentes e, por consequência, mais resiliência e potencial de crescimento. Já as soluções centralizadas carregam riscos inerentes.
Pergunta da Qianyan Research: Os investimentos em blockchain estão ligados à indústria, mas não são a mesma coisa. Na sua opinião, quais são os riscos e as oportunidades atuais para investidores comuns e para profissionais do setor, considerando o momento único que o mundo vive?
Professor Liu Changyong: Acredito que, agora, a principal oportunidade para o investidor comum está em identificar e acompanhar projetos genuinamente descentralizados com potencial real de crescimento.
Para entender essa oportunidade, primeiro precisamos ver as causas da crise atual. Projetos que conseguem resolver efetivamente os problemas que surgem nesse contexto — como os desafios da economia digital ou das moedas tradicionais — encontrarão condições excepcionais para se desenvolver. Em tempos normais, mudar sistemas consolidados — como a internet ou os sistemas monetários — é muito difícil, pois as pessoas estão acostumadas com eles. A mudança só se torna viável quando a situação atual se torna insustentável — quando as pessoas sentem que “não dá mais para viver assim”. Por exemplo, as reformas de mercado na China só foram possíveis porque, depois do período da Revolução Cultural, a população percebeu que o sistema vigente havia se tornado inviável — o que abriu espaço para transformações radicais.
Portanto, tanto para investidores comuns quanto para profissionais do setor, onde está o risco? Está justamente nos ativos tradicionais — todos os tipos de ativos que vemos hoje — que passaram a apresentar riscos crescentes. O dinheiro, então, fica sem saber para onde ir: até o “dinheiro vivo”, antes considerado o ativo mais seguro, se torna questionável em crises sistêmicas dessa magnitude. Quando surge uma crise, os bancos centrais injetam liquidez (“afrouxam a política monetária”), o que pode gerar inflação galopante — criando uma sensação generalizada de insegurança. O que fazer, então? Olhar para o futuro: identificar as direções promissoras e se antecipar a elas — posicionando-se estrategicamente em áreas capazes de resolver a crise econômica global e impulsionar a economia mundial para uma nova fase de crescimento.
Na minha avaliação, o ponto central é exatamente a economia criptográfica.
A economia criptográfica visa resolver os principais problemas da economia digital atual — como a segurança da informação e o monopólio de dados — além de abordar as falhas estruturais das moedas tradicionais. Moedas descentralizadas, finanças descentralizadas (DeFi) e infraestruturas descentralizadas em todas as camadas são soluções concretas para os desafios da economia digital e para o fenômeno recente da “desglobalização”. Ou seja, para reverter a tendência de retrocesso da globalização vista nos últimos anos, a economia criptográfica é a chave.
Pergunta da Qianyan Research: Como especialista em economia, qual é sua análise da crise global atual e quais são as saídas possíveis?
Professor Liu Changyong: Já comentei antes que a saída para a crise está na economia criptográfica. Vou explicar agora com mais detalhes por que isso é verdade. O que, exatamente, faz a economia criptográfica? Trata-se, em essência, do caminho traçado por Satoshi Nakamoto ao criar o Bitcoin — um caminho baseado, sobretudo, no uso amplo da criptografia assimétrica. Por que essa criptografia é tão crucial? Porque, desde o surgimento dos computadores e, depois, da internet, a economia mundial passou por uma transformação profunda: deixou para trás a economia material para entrar em uma nova era dominada pela informação. Isso fica claro na queda acentuada da proporção de gastos com bens materiais (como comida e roupas) e no aumento correspondente do tempo e dos recursos dedicados à informação.
Quando grande parte das atividades econômicas passa a envolver diretamente a informação, a internet naturalmente floresce — afinal, ela foi criada justamente para processar e distribuir informações. É, portanto, uma economia extremamente rápida. No entanto, seu crescimento acelerado trouxe um desafio enorme: a segurança da informação. A circulação e a cópia de dados na rede são muito fáceis, baratas e rápidas — o que gera vulnerabilidades sistêmicas.
Os problemas de segurança da informação surgiram logo com os primeiros computadores: primeiro, com a cópia não autorizada de softwares — quando programas eram replicados e usados sem pagamento. Depois vieram os cavalos de troia e, com o aumento do uso da internet e das redes sociais, os riscos se multiplicaram. Hoje, só grandes empresas têm recursos suficientes para lidar com essas ameaças — o que nos torna cada vez mais dependentes de seus serviços. Ao mesmo tempo, recorremos também às leis e regulamentações nacionais para tentar proteger a segurança da informação — o que, paradoxalmente, reforça ainda mais essa depend��ncia.
No início, acreditávamos que a internet unificaria a economia mundial — criando uma “aldeia global”, com “um só mundo, um só sonho”. Mas, para resolver os problemas de segurança, acabamos dependendo de gigantes corporativos — que, por sua vez, monopolizam nossas identidades digitais e nossos dados pessoais. Recentemente, vazamentos maciços de dados no Weibo mostraram esse risco: a plataforma tinha informações de milhões de usuários. O risco centralizado se tornou, de fato, cada vez mais grave. Além disso, recorremos a leis de patentes e direitos autorais para “proteger” a informação — mas, na prática, essas leis restringem sua livre circulação, fragmentando-a ainda mais. Empresas, legislações nacionais, moedas soberanas e até crenças religiosas contribuem para isolar e segmentar a internet.
Por que a internet está perdendo força hoje? Porque, nos últimos anos, em vez de integrar ainda mais a economia mundial e ampliar a liberdade das atividades econômicas, ela passou a funcionar como uma força que restringe o comportamento econômico individual.
O mundo está se fragmentando em ilhas isoladas — virando uma “ilha-mundo”. Há cerca de trezentos anos, as Grandes Navegações uniram diferentes regiões do planeta, impulsionando séculos de crescimento econômico. Hoje, vivemos um retrocesso: estamos dividindo a internet — que poderia conectar todos — em pedaços isolados.
Nesse cenário, qual é nossa oportunidade? É, de novo, a economia criptográfica — construída sobre duas tecnologias fundamentais: primeiro, a criptografia assimétrica; segundo, os mecanismos de consenso distribuído (embora este último seja mais um mecanismo do que uma tecnologia propriamente dita).
Por que essas duas ferramentas são tão importantes? A criptografia assimétrica foi desenvolvida justamente para resolver os problemas de segurança da informação — e faz isso com eficiência extraordinária e custo muito baixo: basta o usuário controlar sua chave privada para ter total domínio sobre seus dados e ativos digitais.
Ao usar criptografia assimétrica para resolver questões de segurança da informação, acabamos cedendo — justamente para obter essa segurança — diversos poderes a entidades centralizadas, poderes que, em tese, poderiam ser recuperados. O problema é que já vivemos em um sistema profundamente centralizado. Mesmo quando grandes empresas utilizam criptografia assimétrica, elas não devolvem o controle aos usuários. Pelo contrário, continuam exigindo o uso de criptografia simétrica, aplicando a cifragem apenas durante a transmissão, sem permitir que as pessoas gerenciem seus próprios direitos por meio de chaves privadas — afinal, as empresas não podem ter acesso a essas chaves. Dessa forma, mantêm o controle absoluto.
É por isso que precisamos urgentemente de um segundo mecanismo fundamental: o consenso distribuído. Satoshi Nakamoto desenvolveu esse conceito principalmente para criar uma moeda digital capaz de competir com o dinheiro fiduciário — algo tão crucial quanto a própria moeda — e garantir sua sobrevivência. Ao estudar a história, ele percebeu que projetos anteriores de criptomoedas haviam fracassado, e a centralização era a principal causa. Essa centralização vinha de duas fontes: primeiro, entidades centrais que não resistiam a grandes crises econômicas e acabavam falindo; segundo, mesmo quando sobreviviam, essas moedas eram frequentemente usadas para transações ilícitas ou para obter vantagens indevidas — como aconteceu com algumas criptomoedas antigas, que posteriormente foram desmanteladas pelo FBI.
Ou seja, podemos usar a criptografia assimétrica para que cada pessoa controle suas próprias informações na internet de forma extremamente eficiente e a um custo muito baixo. Ao mesmo tempo, podemos empregar o consenso distribuído para eliminar o controle das entidades centralizadas — não apenas no campo monetário, mas em diversos setores. Assim, será possível transformar radicalmente a economia da internet, tornando-a verdadeiramente aberta.
A economia da internet na China cresceu rapidamente nos últimos anos — uma oportunidade extraordinária que devemos valorizar. Se conseguirmos migrar rapidamente da economia da internet para a economia criptográfica, podemos não só sair da crise antes de outros países, mas até ultrapassar os Estados Unidos. Após a crise de 1929, os EUA tiveram um crescimento acelerado: reestruturaram sua indústria, implementaram o New Deal de Roosevelt e adotaram o keynesianismo, o que gerou um forte impulso econômico após a Grande Depressão. Depois da Segunda Guerra Mundial, tornaram-se a maior potência econômica global. Foi justamente essa grande crise que os elevou à liderança mundial. A China enfrenta um cenário semelhante: se aproveitar sua sólida base na economia da internet para fazer essa transição — migrando para a economia criptográfica — pode alcançar a posição de número um do mundo em cinco a dez anos.
É por isso que, nos últimos seis meses, tenho percebido essa tendência com cada vez mais clareza. Principalmente ao me envolver profundamente nesse processo — transformando minhas ideias sobre como construir a economia criptográfica em prática —, vejo que estamos no caminho certo e que os avanços têm sido muito rápidos.
Acredito que, para muitos de nós, esta crise é uma oportunidade única na vida — desde que entendamos suas causas, identifiquemos claramente sua direção e encontremos as pessoas certas, além da lógica e dos métodos adequados para agir. É por isso que, nos últimos meses, me sinto literalmente “energizado” todos os dias. Estou extremamente entusiasmado e preciso constantemente me lembrar de manter a calma — mesmo assim, sempre há uma enorme quantidade de tarefas a realizar, e tudo avança em um ritmo impressionante. Confesso que, ao falar sobre isso, fico realmente emocionado — e espero que cada vez mais pessoas se juntem a nós para compreendermos plenamente essa realidade.
Pergunta da comunidade: O senhor vê a economia criptográfica como a saída para a crise econômica global. Como exatamente a blockchain pode nos tirar dessa crise?
Professor Liu Changyong: Como a economia criptográfica pode nos levar para fora desta crise? Primeiro, através da aplicação do mecanismo de consenso criptográfico. Na verdade, a economia criptográfica pode ser dividida em dois níveis: uma parte chamada “consenso criptográfico”, que combina o uso da criptografia assimétrica com o consenso distribuído — ou seja, a construção de sistemas descentralizados. Para que servem esses sistemas? Exatamente para resolver o maior problema da economia global atual: sua fragmentação e divisão, além do protecionismo comercial. Nós, usuários, temos todas as condições necessárias para integrar a economia mundial — mas somos artificialmente separados. Como resolver isso? Primeiro, precisamos entender como essa divisão acontece — como a economia mundial é fragmentada.
Eles fazem isso controlando algumas infraestruturas críticas. Primeiro, controlam a moeda — fragmentando-a. Segundo, controlam os sistemas de contas e identidade dos usuários. A JD.com tem seu sistema de contas; o Tencent, outro; o Alibaba, outro; o Facebook, outro; o Google, outro — e todos esses sistemas são isolados entre si. Isso nos prende dentro de grupos corporativos específicos. Por exemplo: você pode transferir dinheiro da sua conta Alipay para uma conta WeChat Pay? Tecnicamente sim, mas é extremamente complicado — e esse é um ponto crucial.
Outros exemplos incluem sistemas de armazenamento de arquivos e sistemas de Internet das Coisas (IoT), entre outros. Ou seja, muitos desses componentes fundamentais, usados em diversos setores da economia global, se puderem ser interconectados — sem que ninguém monopolize seu funcionamento — permitirão facilmente a formação de uma economia mundial integrada. Portanto, para mudar esse cenário, a economia criptográfica deve priorizar a construção de uma infraestrutura econômica descentralizada. A criptomoeda criada por Satoshi Nakamoto é parte essencial desse esforço, pois a moeda é o eixo central do mercado econômico global. Uma vez que a moeda esteja integrada, outras atividades econômicas seguirão naturalmente. No entanto, por que esse avanço tem sido tão lento nas últimas décadas? Porque o Bitcoin foi financeirizado — manipulado pelos mercados financeiros tradicionais — e transformado em mais um ativo em seus portfólios.
Assim, o Bitcoin não cumpriu sua missão histórica de promover a descentralização monetária ou de se tornar uma moeda comum para o mundo todo. Desde 2017, ele começou a retroceder, abandonando esse objetivo.
Para resolver esse problema, precisamos retomar exatamente onde o Bitcoin parou — ou recuou — e continuar avançando. No entanto, esse desafio é extremamente complexo. O Bitcoin Cash tentou fazer isso, mas não entendeu a fundo a natureza do problema. A estagnação ou reversão do Bitcoin em 2017 não foi causada por poucas pessoas ou pela empresa Blockstream, mas sim porque Satoshi Nakamoto, ao projetar o sistema original, priorizou as necessidades da fase experimental inicial — resolvendo problemas de centralização no começo e garantindo uma estrutura básica descentralizada. Porém, ao entrar no mainstream, o sistema deixou de ser apenas técnico: tornou-se também um sistema econômico, político e social — muito mais complexo.
Esse sistema complexo mostra que, embora o projeto de Satoshi Nakamoto seja excelente, não é perfeito. Há aspectos importantes que precisam ser melhorados — por exemplo, a falta de incentivos para desenvolvedores, ou o fato de que o sistema depende excessivamente deles. Decidir sobre todo um sistema socioeconômico com base apenas nas escolhas dos desenvolvedores é um problema sério. Além disso, a eficiência na tomada de decisões é extremamente baixa. É por isso que, mesmo depois que o Bitcoin Cash aumentou a capacidade (scaling), ainda não conseguiu ajustar a estrutura geral — porque o “navio já está em movimento”, e sua escala já é gigantesca. Assim, vimos o Bitcoin Cash tentando fazer vários ajustes, e eu mesmo participei ativamente da comunidade Bitcoin, sugerindo muitas mudanças — mas foi extremamente difícil avançar.
Por quê? Porque é um sistema descentralizado — sem mecanismos eficazes de coordenação ou comunicação.
Portanto, para cumprir a missão histórica proposta por Satoshi Nakamoto — e ir além — é preciso reconhecer que ele talvez não tenha previsto todos os desafios futuros. Ele estava absolutamente certo ao sugerir uma solução descentralizada para o problema monetário, mas não pôde continuar porque deixou o projeto cedo. Se tivesse permanecido envolvido por mais tempo, certamente teria identificado novos problemas e feito ajustes contínuos. É por isso que não apoio o BSV: não devemos voltar à visão de Satoshi Nakamoto de dez anos atrás. Se ele tivesse ficado no sistema, com certeza teria seguido em frente — nunca teria retrocedido. Qualquer empresário maduro ou profissional experiente sabe que, ao estagnar em um determinado nível, sem buscar inovação ou exploração constante, inevitavelmente será eliminado do mercado. O que precisamos agora é aprender com as lições dos últimos treze anos do Bitcoin.
Principalmente, devemos analisar por que houve essa mudança de rumo após 2016–2017, identificando assim os problemas estruturais fundamentais e encontrando soluções práticas. Só assim poderemos avançar rumo a uma criptomoeda verdadeiramente descentralizada. Uma vez implementada, a descentralização da vida econômica — especialmente em sua camada mais básica — permitirá impulsionar, progressivamente, outras formas de descentralização: sistemas de contas, sistemas de identidade, aplicações diversas — livres do controle de grandes corporações, sem monopólio sobre os dados dos usuários. Aos poucos, outras infraestruturas críticas também serão descentralizadas e implementadas. Sobre essa nova base descentralizada, pequenas empresas — que hoje lutam para sobreviver no ecossistema da internet tradicional por falta de inovação e recursos — poderão florescer. Elas trazem inovação e motivação para crescer, mas não conseguem competir com gigantes que monopolizam recursos. Agora, poderão operar em uma infraestrutura compartilhada, acessível a todos, sem que ninguém possa monopolizá-la. É assim que a economia criptográfica poderá, finalmente, ser construída. É exatamente isso que estou fazendo agora.
Nosso projeto aprimora a estrutura de Satoshi Nakamoto e se chama Free Cash (Dinheiro Livre). “Livre” expressa o propósito fundamental do consenso criptográfico: tornar a internet mais livre. “Cash” (dinheiro) reflete nosso compromisso com o conceito original do Bitcoin como dinheiro eletrônico ponto a ponto.
Trabalhamos em três frentes principais. Primeiro, aprimoramos alguns parâmetros do design do Bitcoin: por exemplo, reduzimos o tempo de geração de blocos para um minuto, melhorando significativamente a experiência do usuário; alteramos o período de maturação das recompensas de mineração para dez dias, aumentando os custos e a incerteza para possíveis atacantes baseados em poder computacional, desestimulando assim ataques; substituímos o mecanismo de halving a cada quatro anos — que gera volatilidade excessiva entre ciclos de alta e baixa, prejudicando o mercado — por uma redução anual de 20% na emissão. Segundo, abordamos o problema da governança: embora nossa plataforma de infraestrutura pública seja descentralizada, certas decisões coletivas exigem agilidade — não podemos repetir o impasse de dois anos e meio que aconteceu durante o debate sobre o aumento de escala do Bitcoin.
Por isso, estamos explorando mecanismos de governança — e já começamos a implementá-los. Por exemplo, a cada trimestre distribuímos recompensas de um fundo de governança, concedendo tokens a todos os colaboradores. É uma abordagem descentralizada, mas altamente eficiente. Recentemente fiz uma live na plataforma E-Bo, usando minha conta no Weibo — “Professor Changyong”. Durante cerca de uma hora, expliquei detalhadamente o mecanismo de governança do Free Cash, mostrando como projetamos esse sistema para garantir tanto decisões ágeis quanto a preservação da descentralização — evitando, assim, qualquer corrupção de poder.
Terceiro, construímos, sobre a base de uma criptomoeda descentralizada, outras infraestruturas descentralizadas. No momento, nosso foco está no desenvolvimento de um sistema de contas descentralizado. Com uma moeda descentralizada e um sistema de contas descentralizado já funcionando, poderemos implantar aplicações comerciais reais — permitindo que diversos aplicativos da internet se integrem ao ecossistema. Nesse ponto, entraremos de fato na fase de transição da criptomoeda para a construção de uma economia criptográfica completa — exatamente o que estou fazendo e planejo fazer.
Além disso, nos últimos três meses, tenho sentido claramente que, ao acertar a direção, o ritmo acelera cada vez mais, o caminho fica cada vez mais fluido — e muitas pessoas passam a nos impulsionar. Antes, eu jogava videogame a cada seis meses; agora, nem tenho tempo para isso. Meus dias estão extremamente cheios, com uma infinidade de tarefas a cumprir — e esse estado me confirma que estamos no caminho certo, que é meu dever contribuir com esse esforço e que esse esforço, por sua vez, precisa de mim.
Atualmente, minha sensação mais forte é a necessidade urgente de atrair mais pessoas. Planejamos organizar, logo após o fim da pandemia, uma Conferência de Desenvolvedores da Economia Criptográfica. Começaremos fortalecendo a comunidade de desenvolvedores — mostrando a eles o que estamos construindo e orientando sobre a direção correta a seguir. Já desenvolvemos uma série de protocolos, cuja estrutura básica está consolidada — mas sua implementação prática exige muito mais desenvolvedores.
Bom, esse é o principal conteúdo que queria compartilhar hoje. Estou falando enquanto caminho — traçando essa jornada, desde a crise até as ações necessárias para superá-la. Para mim, essa lógica é extremamente clara, o que me dá total certeza sobre o que devo fazer. Não me preocupo com críticas, acusações ou suspeitas — nada disso importa. O mais importante, diante dessa crise colossal — e dessa oportunidade única na vida — é não hesitar nem um instante, não ficar parado. Precisamos agir com coragem! Obrigado!
