太阳底下没有新鲜事,过去百年投资大佬发家史

Nada de novo sob o sol: a história de enriquecimento dos grandes investidores dos últimos cem anos

BroadChainBroadChain23/01/2020, 16:58
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Resumo

É viável ficar rico apenas com negociação de ações?

FONTE: Junlin

Recentemente, um leitor perguntou, confuso, a Junlin:

"No ano passado, durante o mercado de quedas da bolsa de valores chinesa (A-shares), a maioria das ações que comprei caiu pela metade — perdi tanto dinheiro que fiquei desesperado… Ah!"

"Pergunto-lhe: será realmente viável para uma pessoa comum, como eu, tornar-se rica apenas por meio de operações na bolsa de valores?"

Fiquei em silêncio por alguns instantes, refletindo. Percebi que seria difícil responder a essa pergunta em poucas palavras. Talvez uma história completa sobre a trajetória de sucesso de um influenciador financeiro na bolsa de valores possa lhe trazer alguma inspiração.

1

Vamos voltar mais de cem anos atrás.

No início do século XX, o mercado acionário norte-americano encontrava-se em uma situação semelhante à atual da China.

A economia estava em plena ascensão, consolidando os Estados Unidos como uma futura superpotência. Os preços de diversos ativos estavam em expansão: especuladores compravam imóveis, negociavam ações e realizavam diversas formas de especulação — e todos conseguiam lucrar muito.

Essa época ficou conhecida como a "Era Dourada".

Naquela época, o mercado acionário era controlado por oligopólios financeiros e operadores clandestinos, apresentando volatilidade extrema e caos total.

O oligopolista financeiro mais famoso era J.P. Morgan.

Ele obteve sua primeira fortuna com negócios de café e, posteriormente, fundou o banco J.P. Morgan & Co. Em 1873, derrotou a família Rothschild europeia ao vencer uma competição histórica para financiar títulos públicos norte-americanos em grande escala, consolidando assim seu poder.

Por volta de 1900, o grupo financeiro Morgan conduziu várias transações históricas: uma delas foi a fusão de diversas empresas elétricas — incluindo a companhia do inventor Thomas Edison — formando a General Electric (GE); outra foi a reorganização de várias empresas siderúrgicas — incluindo a empresa do magnata do aço Andrew Carnegie — criando a United States Steel Corporation.

Em 1912, o grupo Morgan controlava um terço dos ativos bancários norte-americanos, dois terços dos ativos seguradores, dois terços dos ativos ferroviários e um quarto dos ativos industriais do país.

O operador clandestino mais famoso era Jay Gould.

Ele começou sua carreira como topógrafo de nível inferior e, posteriormente, tornou-se diretor executivo de uma empresa ferroviária norte-americana.

Durante seu mandato, esse indivíduo subornou em larga escala parlamentares governamentais, realizou fraudes contábeis para levar empresas à listagem em bolsa, especulou com conceitos, realizou emissões adicionais de ações a preços elevados, vendeu suas participações para obter lucros rápidos, gerou pânico em larga escala e pressionou os preços das ações para comprá-las a preços baixos — tudo isso lhe rendeu uma fortuna colossal.

Por exemplo, o conceito de “Sexta-Feira Negra” originou-se de um desastre provocado por pânico, orquestrado por Gould.

Naquela época caótica, havia inúmeros oligopólios financeiros como Morgan e o conglomerado Rockefeller, além de operadores clandestinos e predadores como Gould.

Naquela época, o mercado de ações apresentava altas e quedas extremas, e as flutuações dos preços das ações pareciam não ter qualquer relação com o valor real das empresas.

Por essa razão, o mercado de ações funcionava como um cassino: algumas pessoas se tornavam milionárias da noite para o dia, mas também podiam se tornar indigentes — ou mesmo mergulhar em dívidas avassaladoras — em igualmente curto espaço de tempo.

Você nunca consegue prever se o preço das ações subirá ou cairá no dia seguinte.

No entanto, dois jovens conseguiram fazê-lo. Rapidamente ganharam renome no mercado de ações e foram aclamados como os “deuses das ações” de sua época.

Esses dois indivíduos foram Jesse Livermore (1877–1940) e William D. Gann (1878–1955).

Ambos nasceram em famílias pobres e, ainda jovens, conseguiram empregos como corretores em corretoras, auxiliando clientes nas negociações de ações.

Livermore alcançou fama mais cedo: aos 15 anos já havia começado sua trajetória profissional e investido todo o seu salário no mercado de ações — naquela época, seu salário mensal era de apenas US$ 20.

Isso, no entanto, não foi um obstáculo: graças à sua inteligência natural e à sensibilidade excepcional para os números que regem as flutuações dos preços das ações, conseguiu, com investimentos precisos em mercados de alta e alavancagem, aumentar seu capital inicial para US$ 10.000 em apenas um ano.

Contudo, esse sucesso não durou: durante a subsequente fase de mercado de baixa, as perdas de Livermore foram tão severas que sua riqueza praticamente se esvaiu.

Mas um jovem jamais aceita facilmente uma derrota — para ele, aquilo havia sido simplesmente uma questão de má sorte.

Em 1901, o mercado norte-americano voltou a entrar em uma fase de alta. Livermore tomou emprestados US$ 5.000 de terceiros e retornou ao mercado — e rapidamente acumulou um lucro de US$ 50.000.

Nos anos seguintes, seus ativos cresceram exponencialmente: aos 31 anos, seu patrimônio líquido total já havia atingido US$ 5 milhões.

Naquela época, US$ 5 milhões equivaliam aproximadamente ao patrimônio de um bilionário nos dias de hoje.

Segundo os jornais sensacionalistas da época, após ficar rico, Jesse Livermore levava uma vida extremamente luxuosa: comprou uma mansão em Manhattan, adquiriu um iate, frequentava clubes exclusivos de Nova York e mantinha inúmeros casos amorosos.

Seu ídolo era J. P. Morgan.

No entanto, parece que ele não conseguiu herdar a sorte de Morgan.

Alguns anos depois, ele faliu novamente.

Essa nova falência o deixou profundamente angustiado e levou-o a questionar sua própria existência. Enquanto isso, outra estrela estava surgindo.

Esse homem era William D. Gann.

Gann era um ano mais novo que Livermore, mas entrou no mercado de ações dez anos mais tarde.

Sua fama também veio mais tarde: só em 1908, aos 30 anos, é que Gann começou a ganhar certa notoriedade na Wall Street.

Diferentemente de Livermore — cujo talento residia nas operações, na sensibilidade para captar as tendências do mercado e em um estilo audacioso e agressivo — Gann destacava-se pela pesquisa e é considerado o fundador da teoria técnica de análise de mercado.

Ele acreditava que os preços das ações não seguiam um padrão aleatório, mas podiam ser previstos.

Cada ação possuía uma taxa de volatilidade única, que governava as oscilações de seu preço no mercado. Ao analisar movimentos históricos combinados com princípios matemáticos e geométricos, Gann desenvolveu uma série de teorias de análise técnica.

Por exemplo: a Lei das Oscilações (Law of Vibration), as Linhas Angulares de Gann (Gann Angles), o Quadrado de Gann (Gann Square) e o Hexágono de Gann (Gann Hexagon), entre outras.

Como a época coincidia com um mercado de alta (bull market), os investidores utilizavam suas teorias técnicas para orientar suas decisões de compra e venda, com relatos de precisão extraordinária — o que rapidamente gerou grande comoção na mídia.

A mídia da época descrevia Gann assim:

"Ele é simplesmente incrível! Há relatos de que transformou US$ 130 em US$ 12.000, com uma taxa de sucesso nas operações superior a 90%. Tal metodologia de negociação é sem precedentes nos mercados financeiros!"

Impulsionado pela cobertura midiática, Gann publicou livro após livro, como *A Verdade sobre o Mercado de Ações* (*Truth of the Stock Tape*), *O Seletor de Ações da Wall Street* (*Wall Street Stock Selector*), *A Filosofia de Investimento de Gann* (*Gann’s Investment Philosophy*) e *Quarenta e Cinco Anos na Wall Street* (*Forty-Five Years in Wall Street*)...

Durante toda a sua vida, Gann publicou dezenas de livros, cada um vendendo mais de 100.000 exemplares.

Como uma nova lenda no mercado de ações, inúmeros admiradores vieram visitá-lo, incluindo Livermore.

Os dois se encontraram diversas vezes e admiravam mutuamente as conquistas e a fama um do outro, mas, por fim, não conseguiram colaborar devido a divergências conceituais.

Em que aspectos eles diferiam?

Gann era, por formação, um teórico. Duas premissas fundamentais de sua teoria são:

Primeiro, o mercado de ações possui tendências cíclicas dominantes, sendo necessário operar apenas na direção dessas tendências — jamais contra elas;

Dentro dessas grandes tendências há também pequenas tendências; ao identificar padrões históricos de alta e baixa dos preços com base em probabilidades, é possível acumular ganhos progressivamente, transformando pequenos lucros em riqueza substancial.

Segundo, para obter lucros sustentáveis no mercado de ações a longo prazo, é essencial aprender a realizar stop-loss;

É preciso definir cuidadosamente um limite de perda; caso este seja ultrapassado, a retirada deve ser imediata — nunca se deve hesitar ou apegar-se à posição;

Apenas preservando o capital inicial é possível recuperar-se e voltar a prosperar.

Ele considerava Livermore excessivamente ganancioso, preocupado apenas em obter grandes lucros e alavancando agressivamente — o que facilmente levaria a graves fracassos.

Livermore, por sua vez, era um praticante nato, totalmente indiferente à teoria de comprar barato e vender caro durante as flutuações do mercado, acumulando pequenos ganhos progressivamente.

Para ele, grandes lucros não podem ser obtidos com base nas flutuações de curto prazo dos preços das ações, mas sim com grandes movimentos. Em outras palavras, não basta observar oscilações isoladas — é preciso identificar tanto a tendência principal de uma ação quanto a direção geral do mercado.

Concentrar todos os esforços numa única oportunidade decisiva.

Ou seja, embora Livermore também fosse um especulador, ele nunca buscava operações de curto prazo com entradas e saídas rápidas, pois acreditava que quanto mais frequente a operação, maior o risco de erros e de fracasso.

Somente ao identificar oportunidades críticas, aumentando assim a taxa de acerto, e então apostando fortemente com alavancagem, é possível obter grandes lucros.

Já a capacidade de identificar com precisão tais grandes tendências depende, sobretudo, de uma percepção aguçada do “clima” do mercado.

Quanto às probabilidades matemáticas e aos gráficos geométricos, ele os considerava simples truques enganosos — totalmente imprecisos.

Em outras palavras, embora ambos fossem especuladores famosos por seguirem tendências, seus estilos especulativos eram completamente diferentes:

Um era mais conservador, buscando acumular ganhos progressivamente, realizando operações de venda em alta e compra em baixa durante flutuações de curto prazo, aproveitando a probabilidade matemática para fazer sua “bola de neve” crescer;

O outro era mais agressivo, buscando o sucesso decisivo em uma única operação, ampliando alavancagem durante flutuações de longo prazo e dependendo de talento inato e experiência.

No entanto, independentemente da grandeza de suas diferenças conceituais, ambos se tornaram vencedores na vida durante a gigantesca bolha de mercado dos anos 1920, lucrando enormemente e sendo, desde então, elevados ao status de ícones.

2

Os livros de Gann tornaram-se cada vez mais populares, e seus cursos presenciais chegaram a custar US$ 5.000.

Naquela época, US$ 5.000 equivaliam a cerca de 500 mil yuans chineses atuais — um preço extremamente alto, evidenciando seu enorme sucesso.

Livermore tomou empréstimos e conseguiu, pela terceira vez, reconstruir sua fortuna — cujo valor cresceu para dezenas de milhões de dólares, colocando-o entre os 500 indivíduos mais ricos do país.

Em 1923, um escritor entrevistou Livermore e, inspirado em sua vida extraordinária — marcada por três grandes quedas e três renascimentos — publicou o best-seller mundial Reminiscências de um Operador de Ações.

Esse livro garantiu a Livermore — assim como a Gann — um lugar permanente na história.

Em 1929, o mercado de ações entrou em uma fase de euforia: dinheiro fluía de todos os cantos para Wall Street; trabalhadores comuns investiam todo o seu salário e fundos de aposentadoria no mercado; até vendedores ambulantes e donas de casa discutiam cotidianamente sobre ações.

Livermore percebeu que a crise se aproximava rapidamente. Sua sensibilidade excepcional às tendências de longo prazo levou-o a decidir posicionar-se contra o mercado, abrindo posições de venda (short).

Ele examinou cuidadosamente diversos jornais financeiros, buscando sinais de desaceleração econômica, excesso de capacidade produtiva ou mudanças na política monetária, a fim de corroborar sua decisão.

Ele acreditava firmemente que um mercado de ações em plena expansão há dez anos inevitavelmente entraria em reversão — bastava identificar a faísca que acenderia a explosão. Se acertasse essa aposta, tornar-se-ia incrivelmente rico.

Em setembro de 1929, o primeiro sinal surgiu.

Um grande caso de fraude financeira eclodiu no Reino Unido. Para estabilizar o mercado, o Banco da Inglaterra planejava elevar suas taxas de juros, e o Banco Central dos Estados Unidos provavelmente seguiria o mesmo caminho.

Com o aumento das taxas de juros bancárias, a produção industrial inevitavelmente desacelera, o capital no mercado de ações também diminui e há uma alta probabilidade de que a bolha especulativa do mercado de investimentos entre em colapso.

Livermore aproveitou essa oportunidade, apostando toda a sua fortuna na posição de venda (short).

Nos poucos meses seguintes, o mercado acionário norte-americano realmente sofreu uma crise financeira catastrófica, sem precedentes no século, levando inúmeros traders à falência da noite para o dia.

Já Livermore lucrou 100 milhões de dólares nessa operação, alcançando assim o topo da elite financeira mundial.

A crise financeira de 1929 foi o evento mais importante do século XX, não apenas alterando a estrutura econômica global, mas também desencadeando a Segunda Guerra Mundial, provocando o colapso do Império Britânico e o declínio da Europa, além de gerar instabilidade política nas regiões menos desenvolvidas, que passaram majoritariamente para a esquerda — transformando profundamente toda a história moderna das finanças.

Em primeiro lugar, no nível político, os governos de diversos países passaram a intensificar a supervisão sobre a economia de mercado livre, adotando medidas contracíclicas, investindo maciçamente em infraestrutura, promovendo competição tarifária e comercial e impulsionando a modernização industrial.

Em 1934, foi criada a Securities and Exchange Commission (SEC) dos EUA, exigindo que todas as empresas listadas divulguem demonstrações financeiras completas e confiáveis, além de combater rigorosamente fraudes no mercado de valores e práticas de manipulação de preços.

No mesmo ano, o “Rei da Especulação”, Livermore, faliu novamente durante uma nova turbulência no mercado acionário; alguns anos depois, em estado de profundo abandono, ele optou por pôr fim à própria vida com um tiro.

Sua carta de despedida dizia: “Minha vida inteira foi um fracasso.”

Com a recessão do mercado acionário, os métodos de investimento de Gann deixaram de funcionar adequadamente e suas obras começaram a ter vendas cada vez menores.

Gann faleceu em 1955, aos 78 anos, deixando um patrimônio de pouco mais de 100 mil dólares — equivalente ao patrimônio médio de uma classe média norte-americana típica.

Assim, uma era chegou ao seu fim.

A partir de então, os especuladores técnicos baseados em tendências saíram do centro do palco do mundo dos investimentos, sem que tenham surgido novos nomes excepcionais nesse campo.

Durante a grande baixa de 1929, porém, alguns investidores que haviam sofrido perdas devastadoras repensaram profundamente suas estratégias e despertaram de forma radical.

Eles abandonaram a obsessão tradicional da escola técnica com padrões gráficos e ondulatórios, voltando-se para a análise fundamental do valor real das empresas listadas, inaugurando assim uma abordagem científica para os investimentos.

Se a teoria técnica de Gann pode ser comparada à astrologia da era pré-científica, então as manobras estratégicas de Livermore equivalem ao poderoso exército do Império Mongol.

Em seguida, chegaram à Terra, um a um, os Copérnicos, Darwins e Newtons do mundo dos investimentos.

Todos haviam sido derrotados pela Grande Depressão.

O primeiro foi Benjamin Graham (1894–1976), uma pessoa cuja vida foi marcada por dificuldades contínuas.

Mêncio afirmou: “Quando o Céu está prestes a conferir uma grande responsabilidade a alguém, certamente primeiro afligirá sua mente, exaurirá seu corpo, deixará-o faminto, esgotará seus recursos materiais e perturbará suas ações — tudo isso para fortalecer sua resiliência mental e ampliar suas capacidades.”

Graham pode ser considerado a personificação perfeita dessa afirmação.

Aos 1 ano de idade, seus pais migraram da Europa para os Estados Unidos em busca de trabalho, vivendo como estrangeiros em terra alheia;

Aos 9 anos, seu pai faleceu, privando a família de sua principal fonte de renda e agravando ainda mais sua situação financeira;

Aos 14 anos, sua mãe sofreu perdas catastróficas na bolsa de valores, deixando a família praticamente sem nenhum bem material;

Aos 23 anos, logo após se formar, ao gerenciar pela primeira vez uma carteira de ações para um cliente, perdeu todo o capital do investidor, resultando no congelamento da conta;

Aos 30 anos, fundou seu primeiro fundo de investimento privado, mas foi forçado a dissolvê-lo devido a conflitos entre acionistas;

Aos 36 anos, sua nova empresa de investimentos quase faliu durante a tempestade financeira de 1929, levando à perda total de toda sua riqueza acumulada ao longo da vida.

Contudo, as adversidades não destruíram Graham. Em profunda reflexão, ele consolidou seu pensamento e, nos anos sombrios que se seguiram, escreveu obras revolucionárias como Análise de Valores Mobiliários e O Investidor Inteligente, estabelecendo-se como o “Newton” da escola de investimento fundamentado em análise de valor intrínseco.

Na fase final de sua vida, Graham lecionou na Universidade Columbia, formando gerações de alunos. Sua doutrina funcionou como uma tocha, guiando inúmeros sucessores na abertura das portas do investimento científico.

Então, qual era a ideia central de Graham?

Duas ideias:

Primeiro, priorizar a margem de segurança.

Devido ao profundo impacto causado pela volatilidade do mercado de ações, ele prioriza a mitigação de riscos em seus investimentos, exigindo segurança absoluta.

Portanto, exige que a avaliação seja suficientemente baixa, comprando apenas ações de empresas extremamente desvalorizadas — as chamadas “cigarros murchos” (“cigar butt stocks”).

Segundo, ênfase na análise financeira.

Realiza uma análise quantitativa dos ativos, receitas, lucros, passivos e expectativas de ganhos futuros de qualquer empresa listada em bolsa, determinando seu valor intrínseco para avaliar a viabilidade do investimento.

Tudo é fundamentado em dados — evitando especulações, boatos e decisões impulsivas.

Entre os alunos de Benjamin Graham, destacam-se figuras renomadas do setor de fundos, como Irving Kahn, Walter Schloss e Seth Klarman.

Contudo, o mais famoso, sem dúvida alguma, é Warren Buffett.

3

Warren Buffett teve uma infância muito semelhante à de grande parte dos chineses.

Ele nasceu em Omaha, uma pequena cidade do interior norte-americano, cujo avô administrava uma mercearia e cujo pai trabalhava em um banco — uma origem bastante comum.

Isso ocorreu em 1930, no auge da Grande Depressão, quando bancos faliram e seu pai perdeu o emprego.

Para ajudar a gerar renda, aos seis anos de idade Buffett já revendia chicletes e refrigerantes nas ruas; aos treze anos, começou a vender jornais.

Durante o ensino médio, Buffett comprou várias máquinas de fliperama usadas e as instalou em barbearias, dividindo os lucros 50/50 com os proprietários.

Esse tipo de negócio é semelhante às máquinas de pegar brinquedos (claw machines) encontradas em shoppings ou às máquinas caça-níqueis (slot machines) de cassinos — altamente lucrativo, mas com barreiras de entrada muito baixas.

Sem imprevistos, Buffett provavelmente teria seguido o caminho tradicional de um pequeno empresário rumo à riqueza.

No entanto, um imprevisto surgiu: ainda no ensino médio, o jovem Buffett tornou-se obcecado por ações e decidiu dedicar sua vida inteira a esse campo.

Essa escolha decorre do raciocínio de Buffett:

Na infância, ele vendia chicletes e refrigerantes nas ruas — um negócio que exigia muito esforço físico, com margens extremamente reduzidas, dificultando a obtenção de grandes lucros;

Posteriormente, passou para o negócio de máquinas de fliperama, que parecia bem mais fácil e oferecia margens mais altas, mas, essencialmente, tratava-se de um negócio intensivo em capital;

No início, você identifica uma oportunidade comercial e aproveita a vantagem da assimetria informacional, conseguindo obter algum lucro;

Contudo, à medida que novos concorrentes entram no mercado, os custos com aluguel aumentam drasticamente, transformando a disputa numa corrida para ver quem dispõe de maior poder financeiro;

É evidente que Buffett não possuía tal capacidade financeira, tornando difícil, ao final, obter lucros significativos — levando-o, inevitavelmente, a desistir.

Como um indivíduo comum pode obter grandes lucros, caso não detenha vantagens monopolísticas derivadas de tecnologia ou licenças regulatórias?

A única forma é explorar a assimetria informacional.

O início do negócio de fliperamas era exatamente assim — e muitos outros negócios seguem o mesmo padrão: comprar barato e vender caro, lucrando com as oportunidades geradas pela assimetria informacional.

Se, em última análise, todos esses negócios se baseiam na exploração da assimetria informacional, por que não comprar ações?

Os custos adicionais envolvidos são mínimos, a liquidez é excelente, e, desde que você tenha aptidão para negócios e saiba identificar oportunidades, teoricamente esse é o melhor ambiente possível.

Ao perceber isso, Buffett gradualmente deixou seus pequenos negócios de lado e passou a concentrar seu interesse no mercado de ações.

E, como 99,9% dos investidores individuais, Buffett também começou sua jornada no mercado de ações estudando gráficos de preços, seguindo a tendência de alta e vendendo na baixa — obtendo, contudo, resultados apenas medianos.

No entanto, diferentemente da maioria dos investidores individuais, Buffett adorava ler — chegando a emprestar praticamente todos os livros sobre ações disponíveis na biblioteca.

Naquela época, os livros sobre ações eram dominados por abordagens técnicas, pelo método de Gann e por obras clássicas como “Reminiscências de um Operador de Bolsa” — e Buffett leu todos eles, até chegar ao livro “O Investidor Inteligente”, de Benjamin Graham.

Finalmente, sentiu que aquele livro atingira diretamente seu coração, trazendo-lhe uma súbita clareza mental.

Ao se inscrever para o mestrado, ele escolheu a Universidade Columbia e tornou-se formalmente aluno de Benjamin Graham.

Então, qual é a maior diferença entre ele e outros investidores individuais?

Warren Buffett percebeu mais cedo os defeitos da abordagem especulativa baseada na análise técnica e seguiu o caminho científico do investimento de valor.

Esse ano foi 1950, quando Buffett tinha 20 anos.

Após se formar, Buffett trabalhou por alguns anos como corretor de ações e também operou ações por conta própria. Suas atividades diárias consistiam em coletar informações dos manuais da Standard & Poor’s (S&P) e da Moody’s, analisá-las cuidadosamente e, ao identificar ações de seu interesse, comprá-las e mantê-las.

Ele seguia rigorosamente a metodologia de investimento ensinada por Graham, comprando apenas as ações mais baratas, com uma ampla margem de segurança.

Tudo estava indo muito bem.

O jovem Buffett gradualmente acumulou um patrimônio líquido de várias centenas de milhares de dólares e começou a fundar fundos de investimento privados, elevando o valor total dos ativos sob sua gestão para vários milhões de dólares.

Era uma época maravilhosa.

Aos apenas 30 anos, Buffett já havia se tornado um milionário.

No entanto, o mercado de ações nunca é tão fácil assim — algumas lições sempre precisam ser aprendidas.

Em 1962, após anos consecutivos de alta, muitas ações já não estavam mais baratas. Seguindo a teoria de seu professor, Buffett descobriu que praticamente não havia mais ativos adequados para investir.

Após longa reflexão, ele apostou em uma empresa têxtil à beira da falência: Berkshire Hathaway.

Segundo a análise financeira, o patrimônio líquido contábil da empresa era de US$ 22 milhões; devido à má gestão, suas ações estavam negociadas a preços baixos, permitindo sua aquisição por apenas US$ 14 milhões.

Movido pela ideia de adquirir um ativo subvalorizado, Buffett começou a comprar progressivamente ações da empresa.

O que ele não esperava era que esse investimento se tornasse a maior dor de cabeça de toda a sua carreira como investidor.

Lembre-se de que, na época, o valor total dos ativos sob gestão de Buffett mal ultrapassava a casa dos milhões de dólares; portanto, a aquisição da Berkshire Hathaway equivalia a arriscar todo o seu patrimônio pessoal.

No entanto, investir é algo tão simples quanto fazer contas?

O preço atual, de fato, é baixo — mas e o futuro?

Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da era do comércio globalizado, a indústria têxtil norte-americana sofreu sucessivas derrotas diante da força de trabalho barata do leste asiático, levando as ações da Berkshire Hathaway a uma constante queda.

Warren Buffett continuou comprando à medida que os preços caíam, até assumir o controle total da empresa — ficando preso nela para o resto da vida.

Em 1985, a Berkshire fechou sua última fábrica têxtil; o valor arrecadado com a liquidação de todos os ativos restantes foi de apenas US$ 160 mil.

Essa empresa fantasma tornou-se, desde então, a bandeira de Buffett, servindo-lhe como um lembrete perene dessa lição.

Então, qual foi seu erro?

— Não perceber a grande tendência histórica.

4

Após a Segunda Guerra Mundial, o poderio dos Estados Unidos cresceu exponencialmente, desencadeando a Terceira Revolução Tecnológica.

Em 1946, a IBM inventou o primeiro computador eletrônico a válvulas, o ENIAC, inaugurando a era dos computadores; no mesmo ano, a Motorola lançou o primeiro telefone sem fio para veículos, inaugurando a era das comunicações sem fio;

Em 1950, a RCA lançou o primeiro televisor em cores;

Em 1954, a Texas Instruments lançou o primeiro transistor comercial de silício, inaugurando uma nova era para os semicondutores;

Em 1956, a Motorola lançou o primeiro pager, trazendo a tecnologia de comunicação sem fio para todos;

Em 1958, a Texas Instruments desenvolveu o primeiro circuito integrado do mundo;

Em 1959, o Bank of America lançou o primeiro cartão de crédito, que mais tarde evoluiu para o sistema global de pagamentos eletrônicos VISA;

Em 1960, a Medtronic lançou o primeiro marca-passo cardíaco implantável confiável, abrindo um novo capítulo na tecnologia médica.

Em 1964, a IBM lançou o revolucionário computador mainframe System/360, o primeiro computador com software de sistema operacional;

Em 1967, a Texas Instruments inventou a calculadora de mão, cujo preço na época era de US$ 2.500 por unidade;

No mesmo ano, a Boeing lançou seu primeiro avião 737, o jato comercial mais vendido da história da aviação, com um total de pedidos que atinge até hoje 15.000 unidades;

Durante as décadas de 1950 e 1960, setores como computação, telecomunicações, medicina, transporte e finanças foram todos transformados pelas emergentes tecnologias eletrônicas, criando estilos de vida em constante evolução e também mercados totalmente novos.

Naturalmente, a tônica dominante dessa era foi o investimento em ações de crescimento.

Contudo, excelentes ações de crescimento costumam ser caras, e sua lógica de investimento entra em conflito direto com a “Teoria da Margem de Segurança” e o princípio de “comprar apenas ações baratas”, ambos defendidos por Warren Buffett.

O jovem Buffett perdeu uma era.

O guru das ações dessa era foi Philip Fisher (1907–2004), um sábio que viveu até os 98 anos.

Fisher graduou-se pela Escola de Administração de Stanford e, ainda jovem, trabalhou como analista de valores mobiliários. Logo após sua formatura, enfrentou a Grande Depressão, ficando profundamente consciente dos riscos do mercado acionário.

No entanto, ele não se deixou intimidar; ao contrário, tornou-se cada vez mais fascinado pela análise de ações de tecnologia com alto potencial de crescimento, aprimorando continuamente seus conhecimentos.

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a economia norte-americana crescia vigorosamente, e Fisher aproveitou essa tendência para fundar sua própria empresa de investimentos, adquirindo agressivamente líderes de mercado entre as melhores ações de crescimento.

As duas ações nas quais Fisher obteve os maiores sucessos foram Texas Instruments e Motorola.

Como mencionado anteriormente, em 1954, a Texas Instruments lançou o primeiro transistor de silício comercial, inaugurando assim a nova era dos semicondutores;

No ano seguinte, 1955, Fisher comprou massivamente ações da Texas Instruments;

Três anos depois, em 1958, a Texas Instruments desenvolveu o primeiro circuito integrado do mundo, impulsionando sua cotação para altas contínuas;

No auge do mercado de alta de 1962, o preço das ações da Texas Instruments havia subido 14 vezes!

No entanto, durante a subsequente baixa do mercado, as ações da Texas Instruments despencaram 80%, mas Fisher não vendeu; ao contrário, optou por manter sua posição;

Em 1967, a Texas Instruments inventou a calculadora de mão, e o preço de suas ações atingiu novos máximos nos anos seguintes, gerando um retorno de 30 vezes para Fisher.

Outro gigante tecnológico, a Motorola, também proporcionou a Fisher um retorno de 20 vezes.

Pode-se dizer que, naquela época, a Texas Instruments e a Motorola desempenhavam o mesmo papel que hoje desempenham a NVIDIA e a Apple.

As ações de crescimento são sempre caras, e sua volatilidade é igualmente impressionante — como uma montanha-russa. Contudo, desde que se identifique corretamente a tendência dominante da época e se aposte no setor certo, os retornos também podem ser extraordinários.

Sobre o investimento em ações de crescimento, Fisher tinha dois princípios fundamentais:

Primeiro, comprar ações equivale a comprar uma empresa. Empresas excepcionais representam apenas cerca de 5% do mercado em qualquer cenário; portanto, caso decida investir, faça-o apenas nas empresas mais excelentes.

Empresas excepcionais possuem três características:

a) Priorizam inovação em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e marketing, possuindo barreiras competitivas sólidas;

b) Contam com uma administração excepcional, capaz de manter vantagens competitivas duradouras no longo prazo — fator extremamente importante, pois somente assim uma empresa consegue superar ciclos de baixa e atingir novos patamares de valorização;

c) Possuem margens de lucro elevadas, mas pagam dividendos baixos ou nenhum dividendo.

Empresas de crescimento reinvestem a maior parte de seus lucros em novas iniciativas de expansão. Caso distribuam dividendos em alta proporção, isso geralmente indica dificuldades na expansão de negócios, levando-as a destinar a maior parte dos lucros aos acionistas.

Segundo, mantenha as ações por pelo menos três anos — adote uma postura de longo prazo.

Quando uma empresa excepcional sofre uma subavaliação injusta pelo mercado, trata-se de uma oportunidade rara — não a deixe escapar. Nesses casos, invista pesadamente e mantenha sua posição com firmeza.

Contudo, na maioria das vezes, as ações de empresas de crescimento de qualidade não estão baratas; portanto, basta adquiri-las a preços razoáveis pelo mercado, sem se preocupar excessivamente com pequenas flutuações momentâneas.

Muitas vezes, o mercado apresenta grandes oscilações, e você pode acabar comprando ações logo antes de uma queda — o que fazer nesse caso?

Desde que a empresa continue sendo excelente e seu futuro promissor, mantenha o princípio de “segurar por três anos”, continue comendo normalmente e dormindo tranquilamente — o tempo provará tudo.

Se perceber que sua avaliação inicial estava equivocada, encare-a honestamente e saia imediatamente, redirecionando seus investimentos para empresas com perspectivas mais promissoras.

O motivo para vender deve estar estritamente ligado às perspectivas de crescimento da empresa — e não tem absolutamente nenhuma relação com as variações de preço de suas ações.

Manter uma mentalidade saudável em relação aos investimentos é fundamental — jamais deixe-se perturbar pelas oscilações do mercado ou pelas flutuações diárias, pois esses são apenas ruídos que interferem no caminho rumo ao sucesso nos investimentos.

5

Ao entrar na década de 1970, Buffett ainda enfrentava grandes dificuldades com suas ações baratas e de baixa qualidade.

Os Estados Unidos enfrentavam desafios soviéticos no espaço e na esfera militar, enquanto, economicamente, eram ofuscados pela ascensão do Japão e da Alemanha. Internamente, a inflação atingia níveis elevados, o dólar se depreciava e a crise se agravava.

No mercado acionário, isso se traduziu em uma estagnação prolongada de dez anos — um verdadeiro inverno sombrio.

Como diz o ditado, “a época cria os heróis”. Nesse novo grande cenário histórico, novos talentos emergiram naturalmente.

Essa década pertenceu a Templeton (1912–2008, 97 anos) e Davis (1906–1994, 89 anos), dois sábios idosos igualmente longevos.

Templeton tinha uma frase famosa: “As tendências de mercado nascem na desesperança, crescem na dúvida, amadurecem na otimismo e morrem no entusiasmo. O momento mais pessimista é exatamente o melhor momento para comprar; o momento mais otimista é exatamente o melhor momento para vender.”

Essa é a famosa regra do investimento contrário de Templeton.

Davis também tinha uma frase célebre: “Compre ações com potencial quando a relação preço/lucro (P/L) estiver baixa (mercado em queda), pois, à medida que a P/L subir e os lucros crescerem, o preço das ações aumentará exponencialmente; inversamente, o preço também cairá exponencialmente.”

Essa é a famosa “dupla alavanca” e “duplo golpe” de Davis (regra de investimento em juros compostos).

Na verdade, tanto o investimento contrário quanto o investimento em juros compostos enfatizam, essencialmente, a compra barata e a venda cara — seguindo os princípios fundamentais do investimento baseado em valor.

Esses conceitos são amplamente compreendidos por muitas pessoas.

O que realmente os destacava era o seu amplo horizonte de investimento internacional, incomparável em sua época.

Templeton estudou na Inglaterra ainda jovem e viajou extensivamente pela Europa, tornando-se profundamente familiarizado com a história, a cultura e a estrutura econômica europeias;

Davis também estudou na Suíça e conheceu sua futura esposa em um trem durante uma viagem pela França.

Em 1968, Templeton tomou uma decisão extraordinária: renunciou à cidadania norte-americana, mudou-se para a pequena ilha das Bahamas, no Caribe, e lá permaneceu por 40 anos, até sua morte.

Ele acreditava que muitos investidores fracassavam devido à interferência de ruídos e ao desejo difícil de controlar. Estar distante dos centros financeiros significava estar distante desses ruídos e desejos, permitindo-lhe, sem dúvida, tomar decisões de investimento com maior serenidade.

Além disso, ao se afastar dos Estados Unidos, ele pôde analisar a economia global de forma mais macroscópica e neutra:

Identificou excelentes oportunidades de investimento no processo de recuperação pós-guerra de economias como as da Alemanha e do Japão, mantendo suas posições no mercado acionário japonês até meados da década de 1980;

Também aproveitou a crise enfrentada pela indústria automobilística norte-americana devido à concorrência japonesa, comprando massivamente ações da Ford em 1978, quando a empresa estava à beira da falência;

Essa capacidade de navegar com destreza entre diferentes mercados levou a carreira de investimentos de Templeton ao seu auge: o retorno anual médio dos fundos sob sua gestão atingiu 18,3%, muito acima do índice acionário norte-americano no mesmo período.

Davis também teve experiências semelhantes.

No início do período pós-guerra, Davis concentrou-se na compra de ações de seguradoras. Naquela época, o setor de seguros, diferentemente das ações bancárias com longa tradição, encontrava-se em pleno período de crescimento juvenil.

O governo norte-americano promovia o seguro universal, veteranos retornavam às suas vidas civis, casavam-se e tinham filhos, surgindo novos produtos de seguro além do seguro de vida, como seguros residenciais e automotivos.

Bônus demográfico + aumento da penetração de mercado + inovação nos negócios fizeram com que o potencial de crescimento das ações de seguradoras não ficasse atrás do de outras ações tecnológicas.

Davis começou sua carreira de investimentos com um empréstimo de US$ 50.000 de seu sogro e realizou sua acumulação inicial graças ao mercado de alta dos anos 1950 e 1960;

Quando a bolha acionária norte-americana atingiu seu ápice na década de 1960, ele transferiu rapidamente seus investimentos para o Japão, comprando ações de seguradoras emergentes no mercado acionário japonês, repetindo assim o sucesso obtido anteriormente nos Estados Unidos.

Crescimento estável dos resultados + aumento da relação preço/lucro (P/L) + sucessão de mercados de alta em diversos países + alavancagem transformaram os iniciais US$ 50.000 em uma fortuna colossal de US$ 900 milhões após 40 anos.

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Os anos de 1977 e 1978 representam um divisor de águas histórico nos Estados Unidos.

Em 1977, George Lucas lançou o filme de ficção científica que causou sensação mundial, Star Wars, impulsionando a indústria cinematográfica para a era dos blockbusters com efeitos especiais;

No mesmo ano, a empresa Apple lançou o Apple II, o primeiro computador pessoal da história humana;

No ano seguinte, a IBM lançou seu próprio produto de computador pessoal (PC), em resposta direta ao Apple II, introduzindo o chip 8088 da Intel e o software BASIC da Microsoft, dando assim início à “Era 2.0” da indústria global de computadores.

Impulsionado por essa onda de inovação tecnológica, os Estados Unidos retomaram seu ímpeto de renascimento, invertendo sua posição na rivalidade com a União Soviética, e os investimentos em ações de crescimento voltaram a ser o tema central da época.

Em 1978, Warren Buffett, então com 49 anos, e Charlie Munger, com 55 anos, uniram-se — um ponto de virada decisivo em suas carreiras profissionais para o resto de suas vidas.

Você talvez não saiba que, embora sejam considerados os melhores parceiros na história dos investimentos — e venerados como mestres pelas gerações posteriores — Buffett e Munger possuem personalidades diametralmente opostas.

Na juventude, as notas escolares de Buffett eram apenas medianas, razão pela qual sua primeira opção, a Universidade de Harvard, o rejeitou. Já Munger era, de fato, um aluno brilhante, formado pela Faculdade de Direito de Harvard.

Buffett é reservado por natureza e evita interações sociais; após alguns anos trabalhando, ele retornou à sua cidade natal, Omaha, para operar ações por conta própria. Já Munger sempre viveu nas grandes cidades, especialmente em Los Angeles, experimentando diversos caminhos profissionais.

Para Buffett, só existem ações — e apenas o “método interno” ensinado por seu mentor, Benjamin Graham;

Já Munger é uma pessoa profundamente curiosa, leitor voraz e estudioso incansável de temas variados. Além de ações, também atuou em imóveis, private equity e outros campos, com uma ampla gama de interesses.

Contudo, durante a década de 1970, Buffett enfrentava dificuldades, e Munger tampouco estava passando por um bom momento.

Buffett encontrava-se preso às chamadas “ações-cigarro”, ou seja, ações baratas com valor intrínseco aparentemente subestimado, sem conseguir avançar. Seu dilema residia no fato de que, apesar de parecer cientificamente sólido, o modelo de “margem de segurança” podia levar a armadilhas de valor extremamente perigosas.

O problema de Munger era outro: “Eu entendo todos os princípios, mas ainda assim sou propenso a agir por impulso.”

Como resultado, nos dois anos anteriores à sua parceria com Buffett, Munger sofreu sucessivas perdas financeiras de grande monta em sua carreira de investidor — levando-o a um estado de profunda desilusão, chegando inclusive a liquidar sua própria empresa de investimentos.

Não existe, de fato, uma pessoa perfeita no mundo.

Charlie Munger é hábil em planejar, mas não em tomar decisões — na antiguidade, seria ideal como estrategista militar; na atualidade, é mais adequado como analista.

Warren Buffett é hábil em tomar decisões, mas não em planejar — na antiguidade, seria ideal como general; na atualidade, é mais adequado como trader.

Quando o trader Buffett encontra o analista Munger,

Buffett pergunta:

“Durante toda a minha vida, aderi rigorosamente à regra da margem de segurança. No entanto, mesmo entre ações com avaliações aparentemente seguras e baixas, existem armadilhas de valor tão profundas. Como posso superá-las, senhor?”

Munger responde:

“Tenho aqui três conselhos preciosos:

Primeiro, em vez de gastar tempo e energia comprando empresas ruins a preços baixos, é melhor investir em boas empresas a preços razoáveis.

Segundo, se o potencial de crescimento de uma empresa for suficientemente forte, mesmo que seu preço das ações esteja um pouco elevado, ainda assim vale a pena comprá-la.

Terceiro, ao investir em ações, não se trata apenas de apostar nas oportunidades setoriais, nos produtos e no modelo de negócios da empresa — o mais importante é avaliar se sua equipe de gestão é composta por pessoas ambiciosas e capazes de administrar bem. Caso positivo, mesmo que o preço esteja 2 a 3 vezes acima do valor corrente, ainda será considerado um preço barato.”

Ao ouvir isso, Buffett teve uma súbita e profunda revelação. Mais tarde, contou a um amigo:

“Ele ampliou minha visão com o poder de seus pensamentos, permitindo-me evoluir, a uma velocidade extraordinária, de um macaco para um ser humano. Caso contrário, eu seria muito mais pobre do que sou hoje.”

Pode-se dizer que, desde que Buffett e Munger uniram forças, sua metodologia de investimento foi aprimorada.

Ele deixou de se concentrar em ações “cigarros” baratas e passou a escolher empresas de alta qualidade com crescimento estável, investindo nelas a preços razoáveis.

É como combinar Benjamin Graham com Philip Fisher — uma fusão perfeita e harmoniosa.

Ninguém no mundo pode rivalizar com essa abordagem.

Ah, não! Ainda há adversários~~~

Na década de 1980, surgiu um gênio no mundo dos investimentos: Peter Lynch, o segundo grande mestre das ações de crescimento.

Peter Lynch nasceu em 1944, um ano antes do fim da Segunda Guerra Mundial, quando as forças aliadas lançaram a invasão da Normandia e já tinham a vitória praticamente garantida.

Do ponto de vista da experiência profissional, Peter Lynch era apenas um jovem recém-chegado;

no entanto, em termos de trajetória de investimentos, ele possuía vantagens incomparáveis em relação às gerações anteriores.

Primeiro, ele não vivenciou os terríveis eventos da Grande Depressão nem os distúrbios causados pelas guerras, tendo crescido durante o período de prosperidade econômica pós-guerra; por isso, sua mentalidade era muito mais leve, otimista e propensa ao risco;

Segundo, logo após se formar, ingressou na renomada Fidelity Investments, começando como estagiário, onde recebeu treinamento teórico especializado e operou em uma plataforma de grande porte — ou seja, partiu de um nível elevado e evitou muitos desvios;

Por fim, teve sorte suficiente: em 1977, Lynch assumiu a gestão do fundo Fidelity Magellan, e, na década de 1980, as ações de crescimento decolaram. Lynch diversificou amplamente seus investimentos e retirou-se no auge de sua carreira.

Estatísticas indicam que, nos 13 anos em que Peter Lynch geriu o fundo Fidelity Magellan (de 1977 a 1990), a taxa anual composta de crescimento foi de 29%, a maior média entre todos os grandes investidores — superando até mesmo o desempenho de Warren Buffett.

O patrimônio líquido desse fundo cresceu de US$ 20 milhões para US$ 14 bilhões, com mais de 1 milhão de cotistas, tornando-o, na época, o maior fundo de investimento do mundo em valor de ativos sob gestão.

Quanto ao seu estilo de investimento, Peter Lynch tinha duas premissas centrais:

Primeira: concentrar-se em pequenas empresas com sólidos fundamentos, mas que eram ignoradas pelo mercado.

Esse ponto difere bastante de Philip Fisher, que preferia comprar ações de empresas líderes em tecnologia, enquanto Lynch optava por empresas não convencionais do setor de consumo.

Durante sua carreira, Lynch adquiriu mais de 10.000 ações, a maioria pertencentes a pequenas empresas em nichos específicos, como Toys "R" Us, The Body Shop e La Quinta Inns & Suites.

O caso mais famoso foi o da Walmart, embora, no momento em que Lynch a comprou, a empresa tivesse acabado de abrir seu capital havia poucos anos e ainda fosse considerada uma companhia de médio porte.

A Walmart realizou sua oferta pública inicial em 1972 e, nos 25 anos seguintes, viu seu valor de mercado multiplicado por 5.000 vezes, transformando-se de uma modesta loja de descontos localizada em uma pequena cidade do centro dos EUA em uma das maiores redes de supermercados do mundo — além de ocupar a primeira posição na lista Fortune Global 500.

Na década de 1980, período áureo de sua expansão internacional, a empresa adotou tecnologia computacional para modernizar sua cadeia de suprimentos, alcançando um crescimento incomparável.

Nessa fase, a receita da Walmart cresceu de US$ 1,655 bilhão em 1981 para US$ 32,6 bilhões em 1991, com uma taxa de crescimento anual composta de 34,72%; o lucro líquido aumentou 22 vezes e o preço das ações subiu 61 vezes.

Segundo: diversificar investimentos — não colocar todos os ovos na mesma cesta — e manter os ativos por longo prazo.

Esse ponto também contrasta com a filosofia de Philip Fisher, que preferia concentração acionária, ao passo que Peter Lynch favorecia a diversificação.

Há duas razões para isso.

Primeiro, porque o fundo gerido por Lynch tinha um tamanho muito grande, especialmente em sua fase posterior, e suas compras concentravam-se em ações de pequenas empresas, o que exigia necessariamente uma abordagem diversificada.

Segundo, Lynch acreditava que a concentração acionária torna o investidor excessivamente vulnerável às grandes oscilações de preço, prejudicando sua estabilidade emocional e transformando o investimento em uma especulação de curto prazo.

De qualquer forma, Lynch foi uma pessoa suficientemente inteligente, suficientemente dedicada e também suficientemente sortuda.

Um exemplo é particularmente interessante.

Em 1989, Warren Buffett comprou uma ação de companhia aérea. Após a aquisição, enfrentou uma série de adversidades: inicialmente, a Guerra do Golfo provocou uma forte alta nos preços do petróleo; em seguida, ocorreram diversos acidentes aéreos graves ao longo de vários anos consecutivos.

O resultado foi que essa empresa registrou prejuízos sucessivos por vários anos e chegou a ficar à beira da falência.

Essa foi a pior investida da segunda metade da vida de Buffett, levando-o a evitar totalmente ações de companhias aéreas pelos próximos 20 anos — chegando inclusive a chamá-las, com amargura, de “destruidoras de valor”.

Já Lynch teve uma trajetória diferente: seu primeiro investimento foi justamente em uma ação de companhia aérea.

Na época, Lynch havia acabado de ingressar na universidade e utilizou mais de mil dólares de sua bolsa de estudos para comprar ações da Flying Tiger Line, pagando US$ 7 por ação; posteriormente, vendeu-as a US$ 32, obtendo um ganho de 450%.

É simplesmente destino.

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Investir é uma maratona.

Em 1990, o jovem gênio Peter Lynch retirou-se do mercado financeiro, dando início à era de Buffett.

Buffett e Munger, preparem-se para testemunhar um milagre.

Segundo a Forbes, Buffett manteve-se consistentemente entre os três maiores bilionários do mundo nas últimas duas décadas, com um patrimônio líquido atual superior a US$ 80 bilhões.

Mais de 95% dessa riqueza foi acumulada após 1990.

Por que os feitos de Buffett nos últimos 30 anos foram tão notáveis?

Veja a tabela a seguir:

Esta é a lista das 15 maiores posições acionárias divulgadas pela Berkshire Hathaway em sua Carta aos Acionistas de 2018.

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Berkshire Hathaway é a principal empresa de investimentos de Buffett, transformada de uma fábrica têxtil em dificuldades. Atualmente, sua capitalização de mercado é de US$ 500 bilhões, tornando-a a quinta maior empresa listada na bolsa norte-americana, atrás apenas de Microsoft, Amazon, Apple e Google.

A sede da empresa emprega apenas cerca de vinte pessoas, na maioria mulheres, responsáveis por funções administrativas, financeiras e jurídicas, além de 4 a 5 gestores de investimentos.

A imagem abaixo mostra a foto oficial da festa de Natal da equipe em 2014.

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Como tomador de decisões, Buffett normalmente emite ordens de negociação nesta pequena casa.

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Nos últimos 60 anos, Buffett viveu continuamente nesta residência.

Esta é uma pequena cidade do interior dos EUA, localizada na terceira linha, com pouca população e ar puro, onde é possível observar o céu estrelado todas as noites, sem nenhuma interferência de neblina, ruído do tráfego ou luzes piscantes.

Raramente alguma mídia visita este local para entrevistas, e também não há necessidade de se deslocar constantemente entre diversos eventos sociais e setoriais.

Sua mente permanece suficientemente tranquila.

Isso permite que suas decisões mantenham um nível suficiente de racionalidade.

De tempos em tempos, Munger, que mora em Los Angeles, a 2.500 km de distância, liga para ele; aquele analista com ampla visão entusiasma-se ao relatar quais novas empresas promissoras identificou recentemente para investimento.

Já Buffett sempre age com extrema cautela, observando muito e agindo pouco.

Ele afirma que “a direção é cem vezes mais importante do que o esforço”.

Vamos analisar agora suas 15 maiores posições em carteira —

Wells Fargo, Apple, Bank of America, Coca-Cola, American Express, Phillips 66, U.S. Bancorp, Moody’s, Southwest Airlines, Delta Air Lines, Goldman Sachs, Bank of New York Mellon, Charter Communications, BYD, General Motors.

Sete ações financeiras (das quais quatro são bancos), incluindo Wells Fargo, Bank of America, American Express, U.S. Bancorp, Moody’s, Goldman Sachs e Bank of New York Mellon.

A compra de tantas ações financeiras e bancárias deve-se, em grande parte, ao fato de que essas empresas possuem grande capitalização e geram retornos estáveis, funcionando como âncora para uma grande empresa de investimentos como a Berkshire Hathaway.

Além disso, a Apple é uma empresa de tecnologia, a Coca-Cola é uma empresa de bens de consumo, a Phillips 66 é uma empresa de energia, a Southwest Airlines e a Delta Air Lines são empresas de transporte aéreo, a Charter Communications é uma empresa de mídia, a BYD é uma empresa de veículos elétricos e a General Motors é uma empresa tradicional de manufatura.

Essa diversificação abrangente reflete o princípio clássico de “não colocar todos os ovos na mesma cesta”.

Ademais, ações de companhias aéreas — anteriormente extremamente detestadas por Buffett — e ações de empresas de tecnologia — das quais ele havia jurado nunca investir — agora constam, respectivamente, da lista de suas maiores posições.

Vamos destacar agora as cinco ações com os maiores retornos —

Moody’s: 1.368%;

Coca-Cola, 1312%;

American Express, 1069%;

BYD, 745%;

Goldman Sachs, 343%.

O tempo de posse dessas ações foi suficientemente longo, frequentemente superior a dez anos.

As duas ações com o maior tempo de posse — 30 anos — são American Express e Coca-Cola.

Comecemos pela American Express.

Trata-se de uma empresa centenária: inicialmente atuava no setor de entregas expressas, posteriormente migrou para o negócio de cheques de viagem e, por fim, consolidou-se no segmento de cartões de crédito voltados ao consumidor.

Warren Buffett adquiriu ações da empresa em duas ocasiões. A primeira ocorreu na década de 1960, após um escândalo financeiro que provocou uma forte queda no preço das ações; Buffett investiu pesadamente, com uma participação de até 40% na carteira.

Três anos depois, esse investimento gerou um retorno de duas a três vezes, rendendo mais de US$ 10 milhões — resultado que deixou Buffett extremamente satisfeito.

Pode-se dizer que este foi um caso clássico de “virada em situação adversa”.

Em 1990, a American Express enfrentou novamente dificuldades: sua derrota na concorrência com as duas grandes redes de cartões — Visa e Mastercard — resultou em queda simultânea nos resultados operacionais e no preço das ações.

O velho amigo voltou à cena.

Desta vez, Buffett realizou uma análise aprofundada e descobriu que a administração da empresa havia sido substituída. A nova gestão adotou uma estratégia focada no core business e em diferenciação estratégica para competir com os dois gigantes do setor de cartões.

Enquanto Visa e Mastercard visavam o mercado de consumo em massa, a American Express optou por direcionar-se ao segmento premium, concentrando-se exclusivamente nos negócios dos 20% mais ricos.

Em 1991, 1994 e 1995, Buffett aumentou sua posição três vezes consecutivas, mantendo-a até hoje.

Em 1999, os US$ 1,4 bilhão acumulados nas compras iniciais haviam se transformado em US$ 8,4 bilhões — um aumento de seis vezes.

A segunda compra apresenta motivos semelhantes à primeira.

À primeira vista, ambas envolvem uma virada positiva a partir de situações difíceis; contudo, ao analisá-las mais profundamente, percebe-se que não podem ser dissociadas do apoio da “sorte nacional”.

Como mencionado anteriormente, entre as décadas de 1950 e 1960, os Estados Unidos venceram a Segunda Guerra Mundial, alcançando o auge de sua “sorte nacional”, o que impulsionou um grande mercado de ações voltado para empresas de crescimento — permitindo que mestres como Philip Fisher se beneficiassem plenamente desse cenário favorável.

Já na década de 1990, os Estados Unidos vivenciaram sua segunda era de grande prosperidade pós-guerra.

Primeiramente, com a queda do Muro de Berlim e o colapso do Império Soviético, dezenas de países adotaram o capitalismo, abrindo vastos mercados às corporações multinacionais.

Em seguida, ocorreu a explosão da revolução da internet, que elevou significativamente a produtividade e gerou uma nova classe de bilionários tecnológicos.

Esse contexto de “sorte nacional” foi um fator crucial para o grande mercado de ações norte-americano da década de 1990, beneficiando substancialmente a transformação premium da American Express.

O mesmo raciocínio se aplica à Coca-Cola.

Em 1987, os EUA enfrentaram uma crise financeira, e o preço das ações da Coca-Cola caiu 30%. No ano seguinte, Warren Buffett investiu US$ 1 bilhão para adquirir uma posição expressiva na empresa.

Naquela época, a valorização de mercado da Coca-Cola era de apenas US$ 15 bilhões.

Nos dez anos seguintes, a Coca-Cola expandiu-se agressivamente para os mercados da Ásia e da Europa Oriental, dobrando sua receita — tornando-se um dos períodos de maior crescimento em sua história centenária.

Em 1998, a valorização de mercado da Coca-Cola atingiu US$ 150 bilhões — um aumento de 10 vezes em comparação com a década anterior — tornando-se a ação que gerou o maior retorno dentro da carteira de investimentos de Buffett.

Buffett ficou extremamente satisfeito com o retorno obtido com a Coca-Cola, sempre destacando sua “muralha de proteção” (moat) e a forte lealdade à marca — considerando-a um ativo digno de ser mantido por toda a vida.

No entanto, ao analisar detalhadamente esse período, percebe-se que, nos 30 anos em que Buffett deteve ações da Coca-Cola, três quartos de seus ganhos provieram, na verdade, dos primeiros dez anos — ou seja, daquele período de expansão global característico das ações de crescimento.

Nas duas décadas seguintes, após cada canto do “vila global” já estar repleto de garrafas de Coca-Cola — ou seja, quando o teto de crescimento foi atingido — a empresa, na prática, não gerou retornos significativos para Buffett.

As outras três ações — Moody’s, Goldman Sachs e BYD — foram adquiridas, respectivamente, em 2001 e em 2008. Neste último ano, ocorreu justamente uma crise financeira de ciclo decenal.

Demonstra profundamente o significado da frase: “Tenho medo quando os outros estão gananciosos e sou ganancioso quando os outros têm medo.”

No entanto, comparado a duas ações financeiras — Moody’s e Goldman Sachs — o investimento em BYD é ainda mais surpreendente.

Trata-se da primeira vez que uma empresa de tecnologia aparece entre as ações de maior peso na carteira de Buffett — especialmente porque essa empresa é chinesa.

8

Na verdade, Buffett já observava a China há muito tempo.

Em 2003, durante a epidemia de SARS na China, Buffett comprou discretamente ações da PetroChina no mercado de ações de Hong Kong, no valor de US$ 488 milhões.

Cinco anos depois, no auge do mercado de alta em 2007, Buffett vendeu integralmente suas ações, cujo valor total havia subido para US$ 4 bilhões, além de dividendos acumulados de US$ 240 milhões.

Essa foi uma operação clássica, que capturou plenamente os benefícios do mercado de alta gerados pela ascensão econômica da China.

Há dezessete anos, o maior benefício econômico da China era a urbanização e o setor imobiliário, bem como a escassez e a alta dos preços de energia e aço associadas.

Buffett identificou com agudeza essa oportunidade.

Há doze anos, a mão de obra barata da China começou a se esgotar, enquanto a indústria de tecnologia começava a dar seus primeiros sinais de crescimento.

Munger recomendou a BYD, e após uma reunião com Wang Chuanfu, fundador dessa empresa chinesa de veículos elétricos, Buffett decidiu adquirir 10% de sua participação acionária por US$ 230 milhões.

Dez anos depois, esse investimento tornou-se um dos cinco com maior retorno na carreira de Buffett.

Ao revisitar a história centenária dos investimentos, percebemos que os grandes investidores capazes de surfar nas maiores ondas sempre demonstraram excelente capacidade de avaliar o momento histórico e o destino nacional.

Na década de 1920, Jesse Livermore aproveitou a ascensão dos Estados Unidos, a prosperidade do setor imobiliário e a bolha especulativa, posicionando-se contra a bolha no seu ápice e conquistando o título de “Rei da Especulação”;

Na década de 1960, Philip Fisher aproveitou a Terceira Grande Revolução Tecnológica pós-guerra, investindo nas empresas líderes de tecnologia, como Texas Instruments e Motorola, consolidando sua posição como “Pai das Ações de Crescimento”;

Na década de 1970, a economia norte-americana enfrentou dificuldades estruturais, levando Templeton e Davis a investirem no Japão e na Alemanha; sua visão internacional tornou-se fator decisivo para o sucesso;

Na década de 1980, a economia norte-americana se recuperou, e as ações de crescimento voltaram com força; Lynch, o grande mestre da segunda geração dessas ações, destacou-se;

Na década de 1990, Buffett aproveitou a oportunidade histórica do novo ápice da economia norte-americana, “montando” em ações de alto desempenho como Coca-Cola e American Express, alcançando alturas extraordinárias. Como diz o ditado: “O tempo cria os heróis”. Sem a contínua prosperidade da nação norte-americana ao longo de um século, como poderiam ter surgido tantos grandes investidores?

Contudo, diferentemente de outros renomados investidores, Buffett não atuava sozinho.

Atrás dele estava Munger, um analista de elite que lhe permitiu enxergar um horizonte muito mais amplo.

Sob a orientação de Munger, Buffett deixou de se ater às antigas ações baratas do tipo “bituca de cigarro”, passando também a investir em empresas tecnológicas de crescimento, como Apple e BYD; além disso, deixou de comprar apenas empresas norte-americanas, ampliando seu foco globalmente e buscando oportunidades emergentes na China.

No portfólio de investimentos de Buffett, é possível perceber a fusão harmoniosa da filosofia de margem de segurança de Graham, das regras de ações de alta qualidade e crescimento de Fisher, da visão global de investimentos de Templeton e Davis, bem como da consciência de diversificação de investimentos de Lynch.

Assim como todos os demais setores, o mercado de investimentos oferece tanto oportunidades quanto riscos e áreas cegas; as capacidades individuais são, afinal, limitadas. Por isso, a colaboração em equipe torna-se cada vez mais essencial — combinando métodos científicos e profissionais com divisão de tarefas e trabalho conjunto, para enfrentarmos juntos as tempestades mais intensas.

É exatamente por isso que, mesmo sendo um gênio, Livermore, nos primórdios de sua carreira, não conseguiu evitar falências sucessivas; já Buffett, atualmente, consegue manter uma trajetória vitoriosa por mais de meio século — esse é seu segredo.

Em 2019, Buffett já tinha 90 anos e Munger, 96.

Nas entrevistas concedidas à imprensa, suas mentes continuavam lúcidas, seus raciocínios profundamente incisivos, e suas palavras frequentemente revelavam uma clareza perspicaz sobre os assuntos mundanos, aliada a uma sinceridade inabalável em relação aos princípios fundamentais.

Será que foi a experiência acumulada ao longo de décadas de investimentos que lhes conferiu essa serenidade imperturbável?

Ou será que o nível mais elevado do investimento consiste, justamente, na síntese e integração corporal e mental dos princípios que regem o funcionamento de todas as coisas no mundo?

Graham viveu até os 83 anos; Fisher, até os 98; Templeton, até os 97; Davis, até os 89…

Investir, na verdade, é um processo de aperfeiçoamento pessoal.

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Em 2007, às vésperas da crise financeira, o sol brilhava intensamente.

O presidente norte-americano George W. Bush convidou um homem chamado Ray Dalio para ir à Casa Branca e explicar o que exatamente estava acontecendo com a crise dos empréstimos hipotecários.

Na época, os primeiros sinais da crise dos empréstimos subprime haviam acabado de surgir, e ninguém sabia exatamente o que estava ocorrendo.

Dalio afirmou diretamente:

"O nível atual de empréstimos e alavancagem das instituições financeiras norte-americanas já atingiu o mesmo patamar da crise de crédito da Alemanha durante a era de Weimar; sua capacidade de pagamento é frágil, e a falência em massa do sistema bancário é inevitável."

Meses depois, a crise financeira se aprofundou progressivamente, resultando na falência de 400 bancos em todo o território norte-americano — inclusive instituições centenárias como Lehman Brothers, Merrill Lynch e Bear Stearns não conseguiram escapar.

Citibank e AIG Seguros, entre outras instituições financeiras, só sobreviveram graças ao resgate emergencial realizado pelo Banco Central dos Estados Unidos (Federal Reserve).

As ações preferenciais de Warren Buffett — incluindo Wells Fargo, American Express e Moody’s — caíram pela metade, gerando perdas igualmente severas.

A única exceção foi o fundo Bridgewater Associates, controlado por Dalio, que antecipou a eclosão da crise e obteve um retorno positivo de quase 9%, comprando massivamente títulos do Tesouro norte-americano e ouro, além de realizar operações de venda a descoberto contra o dólar norte-americano.

Após a crise, a reputação do Bridgewater Associates cresceu significativamente, consolidando-se gradualmente como o maior fundo de hedge do mundo.

Ray Dalio, o mestre dos investimentos de nossa era, é também considerado o especialista mais competente no gerenciamento de riscos cíclicos.

Então, como Dalio conseguiu sair incólume dessa crise?

Em 1949, Dalio nasceu em Nova York, sendo contemporâneo de Peter Lynch.

Durante o ensino médio, começou a negociar ações; sua primeira compra foi em ações da Northeast Airlines — uma companhia aérea, assim como a primeira escolha de Lynch.

Posteriormente, o preço das ações subiu três vezes, permitindo-lhe realizar lucros seguros.

Depois, ingressou na Harvard Business School, tornando-se novamente colega de classe de Lynch.

Pode-se dizer que essa pessoa extremamente inteligente teve uma trajetória de vida na juventude quase idêntica à de Lynch.

No entanto, nas décadas de 1980, os caminhos dos dois se separaram.

Lynch adotou uma estratégia de investimento diversificada, aproveitando as oportunidades oferecidas por ações de crescimento — um verdadeiro gênio nato;

Dario, ao observar problemas de dívida no México, concluiu que a economia norte-americana também seria afetada e, portanto, apostou na venda a descoberto. No entanto, seu julgamento foi equivocado, levando-o quase à falência.

Essa queda foi extremamente dolorosa para Dario.

Justamente por causa dessa dor, ele começou a refletir profundamente e mergulhou nos estudos da obra A História Monetária dos Estados Unidos, desmembrando e analisando crises econômicas ocorridas ao longo de mais de cem anos, dados sobre alavancagem da dívida e o desempenho de diversos ativos.

Há um ditado no mundo dos investimentos: “Não há nada de novo debaixo do sol”.

Cada flutuação cíclica ou embalagem conceitual — por mais estranha que seja sua variação — já possui uma resposta histórica correspondente.

Apenas com domínio pleno dos casos históricos e das leis que os regem é possível evitar que a agitação do momento ofusque nossa visão, perturbe nosso discernimento e nos deixe despreparados.

Segundo relatos da mídia, o escritório de Dario está repleto de livros, sendo a maioria dedicada a pesquisas sobre crises econômicas — incluindo a Grande Depressão norte-americana da década de 1930, a década perdida do Japão na década de 1990 e a crise da dívida latino-americana.

Após mais de uma década mergulhado em pesquisas intensivas, em 1996 Dario lançou sua estratégia All Weather (Todo Tempo):

Simplificando, o mercado financeiro passa por quatro estações, exigindo estratégias distintas de alocação de ativos conforme as condições climáticas econômicas.

Durante períodos de crescimento econômico, são adequados investimentos em ações, commodities e ativos de economias emergentes;

Durante recessões econômicas, títulos são a opção mais indicada;

Em cenários de alta inflação, commodities e ativos de economias emergentes são preferíveis;

Já em cenários de baixa inflação, ações e títulos são as escolhas mais adequadas.

Ao alternar continuamente a alocação de ativos conforme o ciclo entre risco e oportunidade, torna-se possível navegar com maestria através da complexidade do mercado, sem ser afetado negativamente por nenhum fator isolado.

Do ponto de vista da filosofia de investimento, a visão de Ray Dalio é mais macro do que a de seus antecessores.

Sua perspectiva abrange um horizonte de cem anos, deixando de se concentrar nas flutuações detalhadas de ações individuais para apostar no futuro de países inteiros.

Em 2018, a Bridgewater fundou oficialmente seu primeiro fundo de private equity na China, transferindo gradualmente suas posições da bolsa norte-americana — em alta há dez anos — para países emergentes em ascensão.